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Hipocrisia e ponto final.

Como a pandemia nos escancarou condutas hipócritas e indecentes.

Se tem uma combinação que é indiscutível é o já passado ano de 2020 e, espero, o também já passado Covid-19, que ceifou milhões de vida pelo mundo, direta e indiretamente, atacou a humanidade de forma invisível e sorrateira e trouxe um elemento que talvez não esperássemos (pelo menos a nossa geração, que nunca passou por guerras graves ou grandes eventos catastróficos): O fato de sermos absolutamente vulneráveis.

Outro ponto que achei interessante, perpassando uma brevíssima reflexão sobre o Covid-19, é que as catástrofes geralmente vêm acompanhadas de um furor de empatia e congregação entre as pessoas, quase que numa corrente de voluntarismo conjunto para vencer o mal maior e barrar o avanço daquele que não faz parte do nosso cotidiano. É que nem cachorro de fazenda: Eles se odeiam, se detestam entre si, até chegar um cachorro intruso, momento onde eles se juntam, expulsam o que não foi chamado e voltam à sua rotina.

O problema é que a humanidade (e aqui falarei do Brasil em especial), deu um grande sinal de que não está nem aí para o cachorro ao lado: O que importa é o seu rabinho, lacrar no instagram e ponto final, o que me deixa não apenas temeroso sobre o nosso futuro, mas também indignado em perceber como o Brasil é um país formado por inúmeras pessoas que não conseguem jamais ver a situação sob um viés macro, mas sempre analisa o problema pelo seu cerne microscópico.

Se você não entendeu, vou explicar.

A pandemia do Covid-19 deu sua cara lá pelos idos de fevereiro (coincidentemente, imediatamente após o carnaval), ou seja, estamos sob a ameaça invisível real e perigosa por quase um ano. Nesse um ano passamos por inúmeras fases absolutamente complementares, mas que desenham o nosso país quase como em um retrato perfeito.

Uma primeira fase se resumiu em consternação geral e absoluta, pois não sabíamos o que iríamos enfrentar, a letalidade do vírus, como ele se comportava e como agia sob a nossa ignorância no tema. Cientistas e médicos do mundo inteiro se trancaram em seus laboratórios e conseguiram, a um tempo recorde (o que é merecidíssimo de aplausos), nos dar pelo menos algumas respostas superficiais, nos tranquilizando e nos deixando um pouco mais crentes de que venceríamos a batalha, quer fosse cedo, quer fosse tarde.

Nessa primeira fase (e aqui eu me incluo), jorraram posts nas redes sociais mandando todo mundo ficar em casa, com a recomendação da duvidosíssima Organização Mundial de Saúde para que evitássemos a proliferação do vírus e salvássemos vidas. Fotos nos stories com uma cerveja famosa de casco verde, na piscina, ao som de lives sertanejas eram quase que lugar comum nas redes sociais, sempre acompanhado do jargão mais famoso do ano: Fique em casa e salve vidas.

Aqui os agentes públicos se esbaldaram: A síndrome de herói da nação colocou todos em pé de combate: Uns negando o inegável e outros piorando o que não era tão ruim assim. Prefeitos, Governadores e Presidente da República se engalfinhando diariamente, como se o problema não fosse a pandemia, mas sim uma competição para quem arrumaria uma solução melhor e mais rápida, sendo que a solução foi novamente o senso comum (ou a falta dele): Nos trancar em casa sem qualquer justificativa mínima de plausibilidade, ou, quer dizer, com a justificativa de que seriam construídos leitos para atender a todos.

Os meses passaram e chegamos à segunda fase: As pessoas minimamente instruídas ao básico do bom senso (e aqui também, modestamente, me incluo), começaram a perceber o óbvio, que não havíamos percebido nos primeiros dias: Trancar tudo mata muito mais do que bolar uma estratégia razoável para contenção do vírus: Milhares de empreendedores fecharam as portas, milhões de pessoas perderam seus empregos e viram sua dignidade ir para o ralo, centenas de milhares de autônomos se viram sozinhos, em suma, curamos novamente a doença matando o corpo e não a doença em si (e tudo isso sem resolver a porcaria do problema que justificou tudo isso, que era estruturar nosso sistema de saúde).

A terceira fase veio então com uma guerra de narrativas: De um lado os negacionistas malucos, contrários à ciência e à gravidade do vírus, os genocidas de plantão; do outro, os lacradores do fique em casa, estou trancado e sem qualquer perspectiva de sair para salvar sua vida, os senhores cancelamento em prol de uma narrativa no mínimo duvidosa, que é ficar em casa quando se tem casa para ficar.

Aqui, exatamente neste ponto, começa a hipocrisia.

Antes de mais nada, eu não estou do lado de nenhum dos extremos, pois não acho a pandemia um problema simples, até porque, se assim o achasse não teria a menor empatia por aqueles que perderam seus entes queridos em torno dessa fatalidade, e também não estou ao lado dos lacradores de plantão, dos garotos do bairro nobre que bradam o fique em casa sem saber minimamente a realidade do país.

O Brasil é um poço de desigualdade social, é um lugar onde quem tem uma moradia adequada precisa levantar às mãos aos céus e agradecer, pois, se trata de um privilégio que a esmagadora maioria da nossa sociedade não tem o prazer de chamar de seu. São pessoas amontoadas em barracos, em rincões afastados, nas favelas e nos becos, morando 15 ou 20 pessoas em um espaço diminuto, sem saneamento básico mínimo e sem possibilidade FÍSICA E GEOGRÁFICA de realizar o isolamento social, mas o Sr. Felipe Neto insiste que todo mundo deve ficar em casa.

Eu citei o Felipe Neto pois ele é o assunto do momento, lembrando que ele cancelou meio mundo desde que começou a pandemia, xingou quem pensou de forma diferente, criticou os famosos que se aglomeraram sem critério razoável (erradamente também ao meu ver), e foi pego semana passada jogando futebol, momento onde tentou consertar o erro da pior forma do mundo: Se justificando através da sua própria hipocrisia.

Só para constar, eu não sou contra o fato dele ter jogado futebol (até arrisco meus chutes de vez em quando), faço academia, estou em um local que sei ser de risco, mas em nenhum momento, repito, em nenhum momento, eu saí xingando os outros e fui pego no meu próprio desembaraço: O problema não está no ato, mas sim no absoluto descompasso que se mostra na sua conduta errática, sendo o famoso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, que é indecente em qualquer cultura e em qualquer língua.

Outro exemplo claríssimo disso é a BBB Thelma Assis, que está sendo enxurrada com críticas por ter abandonado o isolamento que tanto defendia e ter ido para uma ilha com suas amigas igualmente famosas.

Novamente, eu não sou crítico ao fato dela ter ido para uma ilha curtir com as amigas e aproveitar o dinheiro que merece ter, mas sim teço a minha crítica ao fato de ser mais uma personagem que “ditou regras” e não cumpriu com a sua própria palavra, o que não pode ser chamado de outra coisa, senão hipocrisia e falta mínima de senso sobre a realidade alheia.

Eu digo isso pois essas pessoas, com o máximo respeito que merecem (pois cada um tem uma forma de pensar), ou são alienadas demais e desconhecem minimamente o país onde vivem, pois conforme já falei acima, é evidente que isolamento no Brasil é piada contada pela aristocracia, ou eles sofrem de um mal absoluto de empatia pelo próximo, pois mandam os outros ficar em casa enquanto seus cachês estão normalmente sendo depositados em suas gordíssimas contas bancárias e o Seu Zé, que trabalhou 35 anos para construir sua quitanda, terá que se reinventar com 70 anos para descobrir como se alimentar no dia seguinte, pois sua quitanda não vende mais e o seu neto foi despedido do trabalho que prestava como garçom (porque o restaurante também fechou).

A hipocrisia nestes dois casos recentes não se revela apenas na indecência em fazer o que pregaram para nós não fazermos, mas principalmente no fato de terem pregado algo improvável, impossível e fora da realidade de uma esmagadora maioria que os acompanha, enquanto seu isolamento pode ser feito em uma ilha ou pode ser excepcionado para “bater uma bolinha”.

Como já disse, a conduta no seu cerne objetivo (o que eles fizeram), não está errado em absoluto, pois eu também estou fazendo esportes regularmente e também aproveitei minhas festas de fim de ano ao lado das pessoas que amo, só que há uma latente diferença entre fazer isso e respeitar a conduta adotada pelo próximo e fazer isso enquanto você cancela os outros por fazer o mesmo que você.

A hipocrisia é o maior dos males que trafega na alma, o mais indigno dos crimes contra a moral íntima: É o descompasso entre o falar e o agir, é atestar que o maior presente que recebemos do destino, a palavra, não vale de nada, pois nem ela, que não cobra pedágio e não exige requisitos prévios consegue ser cumprida.

Não quero e nem tenho a intenção de “cancelar” qualquer um dos dois ora citados neste artigo: Acredito que o erro é inerente ao ser humano, é elemento volitivo pela simples condição de viver e somos suscetíveis aos equívocos que alguns caminhos errados nos levam a tomar. Só espero que talvez ambos aprendam a agir e falar no mesmo compasso, na mesma sintonia: Se quer que todos fiquem em casa, deem o exemplo; se você não acredita nisso, faça como achar devido. Só não ditem regras que vocês não conseguem cumprir, pois não existe veneno para a alma mais feio e mais intragável do que a hipocrisia de quem fala o que não faz.

Por: Elias Cesar Kesrouani Junior

Advogado Constitucionalista

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