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A INTERAÇÃO DO FOGO E DA HUMANIDADE

Conversando sobre incêndios no Pantanal com o PhD Arnildo Pott, compartilhamos antiga lembrança de fatos ocorridos em Poconé.

Trabalhando em Cuiabá, fui a um evento de lançamento  do SESC Pantanal,  ansioso por rever a turma de corumbaenses que se deslocaram para lá, comandados pelo Presidente do Sindicato Rural de Corumbá, o saudoso companheiro Luis Alberto Vitório.

Na cerimônia, por coincidência, sentei-me ao lado do poconeano Zelito Dorileo, último fazendeiro genuinamente pantaneiro a receber um Presidente da República, João Figueiredo!

Velhos e bons tempos onde não se impunha a mesma reiterada agenda monopolista a sucessivas  autoridades federais, em luxuosa Estância.

Assistimos juntos um filme institucional, que mostrava as fazendas compradas para o emprendimento, depois o gado saindo, currais, cercas e casas desmontadas e embarcadas em caminhões, finalmente os tratores destruindo as alvenarias remanescentes…

Houve um grupo que aplaudiu, freneticamente, as  partes mais candentes das cenas de destruição!

Terminado o evento, indaguei do  meu parceiro pantaneiro, visivelmente incomodado com a coisa toda, o que achara do projeto.

Do alto de sua idade e sabedoria vaqueana, ele rememorou  rapidamente fazendas e proprietários, somando o rebanho estimado retirado e profetizou: “-No segundo período de seca a partir de agora vai queimar tudo! Até a copa das árvores!”

Neste ponto, o Doutor  Pott, contou-me algo extremamente semelhante: Como representante do CPAP- Embrapa Pantanal, fora convidado para participar e ser um dos botânicos e cientistas do projeto.

Na primeira reunião da equipe, contestou com veemência,  a metodologia empregada de retirar todo o gado…

Foi contraditado e todos os participantes expressarem sua certeza  e confiança  no plano de segurança infalível  com máquinas e  brigadistas treinados.

O ponto fulcral era que tirado o gado, tinham experiência e certeza que os campos virariam floresta!

Do alto de sua ilustrada humildade, o PhD Pott, marcou sua ruptura definitiva com o projeto afirmando: “- Não vai virar floresta nem mata, vai virar um grande incêndio!”

Daí, ele cunhou um axioma próprio e que todos passamos a usar:”- o boi é o bombeiro do Pantanal.”

Nem profecia nem maldição, simplesmente a ciência produtiva não engajada em agenda prévia do PhD Pott,  referendando os 200 anos de experiência no Pantanal, acumulados no venerando Zelito, fatualmente  comprovados nos recorrentes incêndios, em anos posteriores,  naquela “Reserva”.

A Espanha já está usando pastejadores (ovinos bombeiros) para reduzir incêndios em Parques e áreas protegidas.

Cumpre notar, aqui no Brasil, depois de anos seguidos de “completa destruição” no Parque Nacional das Emas, finalmente adotou-se o que já  foi considerado heresia: queimadas controladas para minorar os efeitos do incêndio descontrolado.

Nos Estados Unidos, com a enorme quantidade de aviões de transporte e tripulações  treinadas, nos anos 60 constituíram-se  brigadas aéreas de combate a incêndios, os satélites detetavam os focos e desencadeava-se uma verdadeira operação de guerra contra o fogo!

Anos dessa prática, informam noticiários e perícias cientificas atuais, já evidenciam,  que ao inibir até mesmo os regenerativos incêndios  naturais,  preparam-se mega e catastróficos  incêndios, que torram Parques, florestas, fazendas, cidades, casas e vidas!

O fogo não é uma distorção herdada de nosso passado indígena, senhores preconceituosos ele é e será sempre a consequência, mais do que previsivel, de alguma forma de acúmulo de material combustível!

O novo programa de Prestação de Serviços  Ambientais  não anistie as áreas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, cujos Planos de Manejo já contemplam essa obrigação, mas seja utilizada, prioritariamente, por todos os proprietários responsáveis, no Pantanal ou outro Bioma, que desejam se tornar Produtores de Natureza, ampliando voluntariamente as áreas protegidas de suas propriedades rurais.

Especificamente para o Pantanal, seria a oportunidade de ouro, como forma de reparação da injustiça histórica que foi a estratégia governamental de transferência de gado do Pantanal para o Planalto e Amazônia dos anos 70,  com um Programa de Prestação de Servicos Ambientais contemplando formas de  repovoamento com gado das fazendas pantaneiras que forem secando,  garantindo a  manutenção da melhor e mais eficiente brigada anti incêndio para conservação da bio diversidade local.

Por: Armando Arruda Lacerda

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