
A exigência do uso de capacete na lida rural reacende o debate sobre tradição, segurança do trabalho e a incompreensão histórica do modo de vida pantaneiro
Insistentes notícias das correias de transmissão midiáticas estatais e cripto estatais dão conta que : “-Lei obriga peão a trocar chapéu por capacete sob pena de multa para as fazendas; entenda.”
O título da Nota regulamentadora N° 31 do Ministerio do Trabalho, resume uma intervenção estrategicamente planejada, alegadamente democrática por envolver a palavra final do mesmo Ministério que expede Cartas Sindicais a trabalhadores e empregadores rurais e atua conjuntamente com ambas as Federações e Confederações.
Muitos centram a defesa na diarréia legisferante que somam milhares de resoluções e portarias que se acumularam nos ultimos anos, pantaneiros escudam-se na tradição de que, no Pantanal, até as crianças recebem na infância, inicialmente um EPI fundamental que os protegerá enquanto fizerem rastro neste terreiro do planeta Terra : -O chapéu de palha que antecipa uma embainhada caxiri desgastada, na entrada pré adolescência…
Como pantaneiro, munido de uma foice intelectual,. tentarei, com farta matula de esperança, abrir um trilheiro no meio do charrascal destes espinhosos cipós e logo desnudei alguns fatos.
Parece que os atarefados Fiscais do Trabalho, cansados após transformarem empreiteiros de cerca, acampados no seu local de serviço, em midiáticas e resgatáveis vítimas de trabalho escravo, tomaram resolução de estender mais uma urbanização tida por eles como benfazeja do trabalhador urbano, para combater uma única morte num lamentável acidente envolvendo um peão em plena lida de campo, infelizmente ocorrido em Tocantins.
Ressalto que o cavalo sempre foi para os habitantes do mundo rural um item fundamental de sua autonomia na vida, pois amansar um cavalo era adquirir um bem pessoal que servia como instrumento de trabalho, lazer e conquista afirmativa da própria independência libertadora.
Evidente que, das rotas caravanas seculares de comércio entre continentes , passando por heróicos cavaleiros andantes e os da távola redonda, chegando às cargas de cavalaria símbolos do poder militar de conquista e dominação, chegamos à motocicleta, o cavalo urbano que todos podem conquistar hoje.
Para esses peões urbanos, libertados pelas motocicletas dos transportes coletivos, definiu-se logo uma produtiva imposição, a pilotos e passageiros, de um sistema de proteção universal, o tal capacete.
Na paralela, passamos anos assistindo uma “guerra” sem quartel , entre urbanos protetores de animais e algumas modernidades do ativismo ambiental importado que aliviaram a lembrança atávica dessa vida campesina em liberdade, aos migrantes em diáspora submetidos a uma urbanização forçada: -Rodeios transformando shows de montaria em cavalos e touros, sempre embalados por músicas que tentam trazer o universo rural perdido, para dentro das cidades e dos cubículos onde sobrevivem e trabalham…
Uma morte acidental em milhões que seguem utilizando o cavalo, obrigados a se urbanizar trocando o eficiente EPI do chapéu de palha ou feltro por tal acessório urbano moderno, cuja eficiência urbana comprova-se pelas estatisticas do DataSUS :
“- De acordo com o DataSUS, Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, 119.735 condutores de motos morreram entre os anos de 2012 e 2021, a primeira década de ações para a redução de mortos e feridos no trânsito, estipulada pela ONU (Organização das Nações Unidas).
São 33 motociclistas que morrem todos os dias e a maioria dessas vítimas são homens (89%) e jovens, entre 20 e 24 anos (18% das vítimas).”
Aqui destacamos a eficiência do capacete, pois salvam 10% dos acidentados urbanos, mas totalmente ineficazes e ineficientes como instrumento imaginado por “Fiscais do Ministério do Trabalho”, para tornar saudáveis as relações trabalhista no campo senao6 vejamos : :- A vulnerabilidade também é um ponto de atenção e pode ser comprovada pelo perfil de internações. Segundo uma análise de 2023 feita pelo CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), com dados de 2008 a 2018, apenas 10% dos motociclistas internados por conta de sinistros de trânsito recebem alta hospitalar sem prejuízos ou incapacidade. Ou seja, as chances de sair ileso são bem pequenas.”
Dito isto, chegamos ao Pantanal, que recebeu em 2022 a libertação da escuridão através da inauguração da universalização da energia elétrica, recebendo no Porto São Pedro e na casa da Viúva Enaorina, esposa do Lider Aluisio Chané, da Comunidade Tradicional Curva do Chané , os CEO da concessionária Energisa , o Ministro das Minas e Energia, O Governador do Estado de Mato Grosso do Sul e seu sucessor, Prefeitos Deputados e demais autoridades eleitas.
Pantaneiro véio pode fialmente falar e agradecer tantas autoridades no seu “lugar de fala” , usando como EPIs protetores tradicionais, um pala de lã produzido artesanalmente na Colônia do Bracinho e um chapéu de palha de Carandá.
Pantaneiro soltou a voz e sua Comadre Enaorina amplificou sua voz também, feito tão inédito que uma das autoridades presentes não se conteve e me confidenciou ao final dos atos : “- Não sabia que todos vocês da ribeirinha do Rio Paraguai, sabiam falar…”
Posteriormente não paramos mais de falar e a última iniciativa de outra moradora tradicional da Barra do São Lourenço, coletada por pesquisador oficial, nos informa que ela coleta os capacetes de motociclistas que “rodam” pelos Rios Cuiabá, São Lourenço e Paraguai, construindo ao lado de sua morada, uma pirâmide de capacetes descartados como indestrutíveis componentes do lixo urbano que adentram o Pantanal.
Como homenagem póstuma ao Compadre Aluísio e seus descendentes que continuam a resistir na Curva do Chané, cometi alguns escritos, em que falo sobre os Centauros e Argonautas do Pantanal, rogando para que tais autoridades destas arrogantes proibições impostas , entendam o humilde fato civilizacional pantaneiro exposto no lema : “- O Pantanal não impõe, só expõe.”
Rogo um pouco de paciência e me acompanhe num trecho de antiga crônica publicada chamada : “- Do estouro do rebanhos espanhóis ao centauros pantaneiros”:
“- Ao observador atento, mesmo nos dias de hoje é possível ver homem e cavalo se transfigurar num só elemento, mostrando a interação existente entre o pantaneiro e seu cavalo de lida.
Abre aspas:
“-Merecedor de quadro clássico ou de estátuas que também eternizam essa visão, para o pantaneiro, entretanto, trata-se de cena comum, homem e cavalo, executando num mágico momento, a missão conjunta que só eles poderiam realizar. ”
Fecha aspas.
Tomo ainda a liberdade de rogar um pouquinho mais da preciosa atenção para estes trechos de “Relatório Histórico sobre o Pantanal pré e pós ambientalismo globalizado “, datado de 08/10/2022 2022 para autoridade militar distrital, na esperança que talvez chegasse a tempo do GSI tomar providências e impedir a implantação de um milionário e inútil Big Brother de câmeras nas morrarias fronteiriças, sob a desculpa de “proteção a incêndios em áreas protegidas”, cabalmente destruídas nos incêndios descontrolados de 2024 e 2025 :
“-A mudança manterá o Pantanal igual.
ou
Relatório sucinto para autoridades brasileiras interessadas em conhecer ocorrências históricas nestas fronteiras vivas do Pantanal, pré e pós ambientalismo globalizado.
…Tal perfeição (do Pantanal) conquista espiritualmente alguns recém chegados de forma tão avassaladora que logo se vê mais um adepto do puro pantaneirismo, infelizmente com pessoas mais metalizadas ocorre justamente o opost.
Já o pantaneiro para ser eminentemente urbano, padece dificuldades de compreensão pois só é visto na cidade em seus momentos de lazer ou em visitas periódicas, fazendo parecer aos olhos urbanos ou como um dândi esbanjador ou como um quase mendigo, de acordo com sua condição temporária …
Jamais se imaginaria, coexistir naquele peão trôpego e mal vestido, um Centauro quando montado num cavalo, um Argonauta sobre uma canoa, com um machado e uma mata, vira um Mestre Arquiteto construtor de palácios.
Certamente um tipo meio druída ou alquimista quando esquadrinha o cerrado mais próximo, usando seus conhecimentos fitoterápicos em busca do melhor medicamento para qualquer doença humanabou animal.
E suas mãos, pelo trabalho duro ficam semelhantes a garras, impossível se imaginar a delicadeza com que tocam o acordeon, dedilham a viola, tangem o ganzá em músicas e versos maravilhosos.
E os magníficos artesanatos que produzem em couros, crinas e lãs brutas, madeiras e plantas variadas, tudo se transforma nas mais finas preciosidades utilitárias e necessárias, todas manufaturadas com perfeição artística .
Ele, o pantaneiro, está aqui há séculos , viu Aleixo Garcia percorrer o caminho do Peabirú e voltar com a prata de Potosi, viu Cabeza de Vaca com seus barcos a vela e seus soldados a cavalo.
Viu o gado, cavalos e ovelhas tomados aos espanhóis pelos Guaicurus, crescerem e se multiplicarem neste paraíso da herbivoria.
Viu Bandeirantes de olhos cúpidos buscando ouro, diamantes e esmeraldas, viu esta terra disputada e depois dividida entre espanhóis e portugueses, viu guerra e paz.
Viu o famigerado paraguaio Tenente Resquin, algoz das mulheres e moças da Vila de Corumbá, depois da escovada na Batalha do Alegre, explodir junto com dezesseis companheiros durante a pilhagem no Paiol Militar do Morro dos Dourados…
Viu, e gravou no mais profundo do seu inconsciente coletivo a certeza da absoluta fatuidade das inúteis arrogâncias de leis impostas por Coroas distantes, Impérios, Exércitos invasores, Repúblicas que ora dividem o território do Pantanal, ora o reunificam, depois o dividem de novo.
…Onde muitos só vêem o lucro momentâneo da extração de algum bem, seja mineral, vegetal ou animal, isso tem pouca importância ao criador ou produtor.
Ele representa séculos de convivência harmoniosa com a natureza, percebendo logo o imediatismo fugaz dos que, mesmo impondo ordenamentos a ferro e fogo, logo sua ineficácia ficarà exposta.
O fluxo e o refluxo das águas terminam por mergulhar os mais pretenciosos, tidos como respeitáveis e respeitados, no mais profundo esquecimento.
Diante da dogmática imposição de bizarros modelos externos, o Pantanal com modéstia e alguma ironia, afirma: “O Pantanal nunca impõe, só expõe!…
Armando Arruda Lacerda Porto São Pedro 10/08/2022”
Fecha aspas ☆ aos que se interessarem por este documento completo disponibilizarei a que solicitar via e-mail arcalac54@gmail.com
Quando verifiquei as copiosas referências bibliográficas constante na justificativa “democrática” para a modernização da antiga Norma Reguladora
N° 31, extenso rol de representantes dos trabalhadores e empregadores reunidos com representantes políticos do Ministério do Trabalho, e representantes de nossa jabuticaba jurídica, com representantes em divina ( ou diabólica) missão de produzir o paraíso social para os vassalos que infestam o Brasil.
Cheguei até a separar trechos mas acredito que este trabalho publicado por Marcos Frederico Krüger Aleixo
sobre “-O Parasitismo Social na Literatura Brasileira : – Os casos Rangel e Lobato, disponível no link a seguir que explora o tema, abordando inclusive outros autores e filósofos, sugiro lerem as brilhantes e atuais metáforas do Mestre Alberto Rangel em “Inferno Verde”, limito-me a publicar um trecho do mestre Monteiro Lobato, chamado “O Mata-pau” conto sobre erva de passarinho e também figueiras que abraçam nossas palmeiras como parasitas e as sufocam até a morte:
” – Aquele fiapinho de planta ali, no gancho daquele cedro – continuou o cicerone, apontando com dedo e beiço uma parasita mesquinha grudada na forquilha de um galho, com dois filamentos escorridos para o solo. – Começa assinzinho, meia dúzia de folhas piquiras; bota pra baixo esse fio de barbante na tenção de pegar a terra. E vai tudo, sempre naquilo, nem pra mais nem pra menos, até que o fio alcança o chão. E vai então o fio vira raiz e pega a beber a sustância da terra. A parasita cria fôlego e cresce que nem imbaúba. O barbantinho engrossa todo dia, passa a cordel, passa a corda, passa a pau de caibro e acaba virando tronco de árvore e matando a mãe – como este guampudo aqui – concluiu, dando com o cabo do relho no meu mata-pau.”
Não posso deixar de apantaneirar tantos insigne mestres sem colocar um trechinho de Guimarães Rosa que transformou uma entrevista com um peão pantaneiro e produziu uma imortal ode aos peões e patrões da pastorícia tradicional: “- Com o vaqueiro Narciso” , obra seminal obrigatória antes de leis ou mesmo alguém falar ou escrever sobre o Pantanal, mas limito-me ao seu mais divulgado aforismo, verdadeira confissão da virtude da concisão , tão presentes nos fascinantes haicais japoneses:
“-Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma.
Tenho certeza de que fui longo e prolixo , mas para fazer um contraponto a tantas sinalizações de virtude, resta-me tempo só para pedir perdão se cometi alguma injustiça, e justiça se revelei alguma imperdoável injustiça, o Pantanal assim como o Brasil rural, é feito de gente digna e trabalhadora, cientes dos riscos e de suas próprias limitações, merecem portar facas, revólveres, tiradores, palas e chapéus como EPIs, e não merecem ser confundidos com cowboys americanizados de rodeios de cavalos e touros , muito menos com moto boys urbanos…
O Pantanal não impõe, só expõe os fatos e suas consequências…
Armando Arruda Lacerda
Porto São Pedro
02/02/2026




