A todas as comitivas que conduziram ou conduzem, de pouso em pouso, a vida do Pantanal…
A rede fez um barulho estranho e a lona acima balançou e derrubou gotas do sereno acumulado.
Com um resmungo o velho condutor localizou a lanterna, procurou a abertura do mosquiteiro e lomeou a botina.
Bateu uma na outra, sacudiu e imediatamente a calçou…
Sob a luz da fogueira, viu o cozinheiro terminar de coar o café e recolocar a panela com a sobra do dia anterior sobre a trempe.
O barulho das xicaras louçadas e o cheiro do café, eletrizou todas as redes da comitiva, e num instante havia movimento geral.
Com uma guampa de água, nos baldes pendurados no esteio da lona da cozinha, a água suficiente para escovar os dentes e lavar o rosto…
Eram os minutos que cada um tinha para fazer ou satisfazer as necessidades…
Tomado o café, dobrar e enrolar mosquiteiro e rede, a roupa mais limpa e as cordas no meio, remédios e outros materiais em sacos plásticos bem protegidos…
Mala fechada, o plástico ou lona da proteção superior enrolada e amarrada protegendo-a das intempéries e maltratos do transporte, eram entregues ao cozinheiro e podiam ter acesso ao quebra torto e mais café…
Já se podia ouvir o peão mais novo ou um novato na comitiva, ralhando com a tropa por sobre o frenético troar do polaqueiro.
Chegada da tropa, buçal nas mãos, hora da formatura dos animais, precisão militar, só depois de todos enfileirados, o Condutor joga o seu buçal na sua montadas e todos fazem o mesmo.
Um momento de indecisão quando o condutor examina cernelha e rins de determinado animal, e comprovado o machucado da pisadura, determina outro animal para ser montado.
“-Na bruaca tem um bachero de lã novo, pode pegar, mas na hora do almoço vamos surrar o suador do seu arreio.”, determina com voz de comando.
Todos alimentados, o ponteiro combina o ponto de almoço com o cozinheiro, risca um primeiro ponteado em falsete, e vai para a porteira do pousador.
O ponteiro e os fiadores ficam fora, o condutor posiciona-se de través na porteira, para afinar e conferir a conta do gado, na saída.
Acompanhando o berrante, conferida ao condutor “passar o bico” (contar), a boiada sai ansiosa para desfrutar do capim disponível nesse trecho.
O Condutor é mestre e maestro, ele ensina e sabe que o trabalho depende do serviço de todos, mas principalmente do cozinheiro responsável por manter o bom humor geral…
Da sua capacidade de transmitir conhecimento e chefiar, deriva a confiança que em poucos dias, não só os peões, mas o próprio gado e a tropa passam a ter no Condutor.
Conduzir gado em longas distâncias é estabelecer rotina e hierarquia nos primeiros dias, esse aprendizado mútuo leva homens a confiarem nos animais e os animais a confiarem nos homens.
Cada gesto, cada grito, cada aboio segue a a liturgia do regulamento oral da comitiva pantaneira, que trará bons resultados a quem conduz e a quem é conduzido.
Como cantava Vovô Osório de Barros:
“- E assim,
De curral em curral,
Chega a boiada
ao seu destino afinal,
Dar a vida que tem,
Pela vida do Pantanal!
Armando Arruda LacerdaPorto São Pedro