
Um outro guri dos anos sessenta, envia-me da cidade vídeo no Facebook de um lobo guará manso visitando hospital de crianças e de velhos.
Independente de exageros que a I A possa proporcionar, simpatizei com o Duzentão, nome do canídeo atribuído por quem o criou, como alusão às difíceis notas de R$ 200,00, que circulam com a efígie do Lobo Guará .
Enviou-me o tal Facebook, com singela observação de profunda raiz filosófica pantaneira: “- Selvagem, se for tratado como tal.”
Recebi pela manhã, após um noite marcada por insistentes uivos e chamados de um lobo guará, que tinham desaparecido das noites do Paiaguás inundado, desde que entramos no ciclo de cheia.
Durante a tarde fomos visitar um vizinho e, repentinamente, alçaram vôo na frente do Toyotão Bandeirante emprestado pelo taquarizano Androlage, duas enormes perdizes.

Junto com os uivos/chamados/choro do lobo guará rasgando a noite, tiveram o dom de transportar o velho menino de volta aos róseos anos de seca, com abundância de vôo de perdizes e uivos de lobos guará, que o pulso das enchentes pós 74 haviam levado para longe.
Tínhamos uma pilheta abastecida por moto bomba em frente a sede da Fazenda para um lote de gado manso tambero, fazia parte da rotina do final de tarde abastecemos as duas pilhetas de concreto, apreciarmos as reses virem beber água nessa verdadeira obra de arte do mestre poconeano José Rondon, construída junto com o poço na memorável seca de 1953, conforme gravado no cimento.
Embora fosse terminantemente proibido às crianças se banharem na pilheta, havia espaço para brincadeiras com o jato da ducha flexível que jorrava a gostosa e fria água do poço.
Enchiam -se vasilhas menores, mais baixas pois durante a noite vinham muitos animais pequenos beberem e não alcançavam a altura da pilheta maior.
No meio da noite vinham os lobos se dessedentarem e faziam algazarra semelhante, marcando que aquela era a hora deles e avisando que era um pequeno intervalo de hostilidades entre predadores e presas, armistício de sobrevivência ditado pela necessidade imposta pela crueldade da sede.
Lobos e perdizes, comprovam empiricamente que estamos vivenciando um ciclo natural de seca, e devemos sempre prestarmos sentido e pôr reparo, que secas e cheias são pulsos que regulam a vida do Pantanal.
Esse amigo ficou de me mandar velho registro em preto e branco, tirado por uma Kodak que ilustraria um lobo se dessedentando numa pilheta.
Não preciso de fotos já que trago vívidas, por arquivadas na memória, tantas situações com as cores, sons e cheiros da distante infância pantaneira.
Em tempo:- Pantaneiros atribuem nomes de gente aos animais companheiros, e nome de bichos ou árvores a humanos, não com o intuito de humanizar ou animalizar, mas sim de reverenciar companheirismo e simbiose.
Armando Arruda Lacerda
Fazenda São Luiz
15/12/2025
