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Dependência excessiva também é risco: lições da nova postura chinesa

Guilherme de Barros Bumlai

A recente decisão da China de estabelecer cotas para a importação de carne bovina e aplicar tarifa adicional sobre o volume excedente acende um sinal de alerta importante para toda a cadeia da pecuária brasileira. Mais do que um movimento pontual de política comercial, trata-se de uma mensagem clara sobre como grandes mercados consumidores estão atentos à sua segurança de abastecimento — e dispostos a adotar medidas protecionistas sempre que julgarem necessário.

Do ponto de vista prático, é fundamental esclarecer que não se trata de uma medida com efeitos imediatos. A taxação só incide após o eventual atingimento da cota e, na prática, existe a possibilidade de redirecionamento de volumes para outros mercados. Ainda assim, o simples anúncio gera incerteza e pode ser utilizado como argumento para pressionar preços no curto prazo, mesmo sem respaldo nos fundamentos de oferta e demanda.

Mas o episódio traz uma reflexão ainda mais ampla e necessária. Assim como a China demonstra preocupação em não se tornar excessivamente dependente da carne brasileira, o Brasil também não pode se dar ao luxo de concentrar quase metade de suas exportações de carne bovina em um único destino. Essa dependência cria vulnerabilidade. A qualquer momento, como já aconteceu no passado, mudanças regulatórias, sanitárias ou comerciais podem provocar impactos significativos, com efeitos diretos sobre preços, fluxo de embarques e renda ao longo da cadeia, até que o mercado consiga se reorganizar.

Diversificar mercados não é apenas uma estratégia comercial desejável — é uma política de gestão de risco. Ampliar a presença em outros países, fortalecer relações com mercados já abertos e acelerar negociações sanitárias e comerciais com novos destinos são medidas essenciais para dar mais previsibilidade à cadeia da carne bovina brasileira.

O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne do mundo, com competitividade, escala e qualidade reconhecidas. Justamente por isso, não pode ficar excessivamente dependente de decisões unilaterais de um único comprador. O momento exige visão estratégica e coordenação entre governo e indústria para transformar esse alerta em oportunidade, reduzindo vulnerabilidades e fortalecendo a posição brasileira no comércio internacional.

Repensar a distribuição das exportações, diminuir a concentração e construir uma carteira mais equilibrada de mercados é o caminho para fortalecer o setor, dar previsibilidade à cadeia e proteger a pecuária brasileira no longo prazo. A lição está posta — e o tempo para agir é agora.

Guilherme de Barros Bumlai é pecuarista, advogado e presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (ACRISSUL)

Flávio Fontoura

Flávio Fontoura é jornalista, fundador e editor-chefe deste portal, onde assina a maioria das reportagens. utiliza sua expertise no setor audiovisual e sua visão empreendedora para liderar a linha editorial do site, unindo o rigor da informação à dinâmica da produção de conteúdo moderno.

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