NotíciasPolítica

Redução da jornada para 36 horas pode reduzir PIB em até 6,2%, apontam estudos

Propostas para extinguir a escala 6×1 elevam custos trabalhistas e geram impacto desigual entre setores da economia

A possível redução da jornada máxima de trabalho no Brasil, de 44 para 36 horas semanais, pode provocar uma retração de até 6,2% no Produto Interno Bruto (PIB). A estimativa é resultado de estudos realizados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre) em conjunto com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que analisaram o impacto do fator trabalho sobre a atividade econômica.

Segundo as simulações, o efeito negativo estaria diretamente ligado à ausência de ganhos significativos de produtividade. Atualmente, com exceção do setor agropecuário, o Brasil apresenta estagnação nos índices produtivos há décadas, o que limita a capacidade de compensar a redução da carga horária sem perdas econômicas.

Os levantamentos também indicam que a mudança elevaria o custo da hora trabalhada em cerca de 22% para trabalhadores que cumprem a jornada máxima atual. Considerando o conjunto dos vínculos formais, o aumento médio seria de 17,6%. Esse avanço pressiona diretamente as empresas, especialmente aquelas com maior dependência de mão de obra.

O impacto, no entanto, não seria uniforme entre os setores. Segmentos como vigilância e segurança, onde os gastos com pessoal representam mais de 78% das despesas, poderiam registrar aumento de até 6,6% nos custos operacionais. Já serviços voltados à manutenção predial teriam alta estimada em 6%.

Por outro lado, setores como comércio e indústria alimentícia sofreriam impactos mais moderados, próximos de 1%, devido à menor participação da folha salarial nos custos totais. Ainda assim, especialistas alertam para possíveis efeitos indiretos, especialmente sobre trabalhadores que dependem de comissões para complementar a renda.

Entre os setores mais vulneráveis, o transporte aparece com potencial de queda de 14,2% no valor adicionado, seguido pela indústria extrativa, com recuo estimado de 12,6%, e pelo comércio, com possível retração de 12,2%.

O debate sobre o tema ganhou força no Congresso Nacional. Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 foi encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça, enquanto o governo federal avalia tratar o assunto por meio de projeto de lei. Centrais sindicais defendem a medida, argumentando que a redução da jornada pode melhorar a qualidade de vida e estimular o consumo.

Dados históricos reforçam o desafio. Entre 1981 e 2023, a produtividade por hora trabalhada no Brasil cresceu apenas 0,5% ao ano. No mesmo período, o setor de serviços — responsável por cerca de 70% das horas trabalhadas — permaneceu praticamente estagnado, evidenciando a dificuldade de sustentar mudanças estruturais sem avanços na eficiência.

Especialistas apontam ainda que pequenas empresas podem enfrentar maiores dificuldades de adaptação, já que concentram maior proporção de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais. Nesse cenário, a reorganização operacional pode implicar aumento relevante de custos e desafios na manutenção da competitividade.

O tema segue em discussão e envolve interesses econômicos e sociais, com diferentes visões sobre os efeitos da mudança no mercado de trabalho e no crescimento do país.

Da redação Mídia News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo