
O Brasil enfrenta um dos cenários mais críticos da última década no que diz respeito à inadimplência. Dados divulgados pela Serasa Experian apontam que, em fevereiro de 2026, o número de brasileiros com dívidas em atraso chegou a 81,7 milhões — o maior já registrado no país. O volume representa um crescimento significativo em relação a dez anos atrás, quando cerca de 59 milhões de pessoas estavam negativadas.
Segundo a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o avanço da inadimplência ocorre de forma contínua desde o início de 2025, com sucessivos recordes negativos mês após mês. O cenário reflete o agravamento das condições econômicas e a dificuldade crescente das famílias em manter o equilíbrio financeiro.
A pressão sobre o orçamento doméstico é um dos principais fatores por trás desse quadro. Atualmente, cerca de 70,5% da renda média dos brasileiros está comprometida com dívidas, o que reduz drasticamente a capacidade de consumo, inclusive de itens essenciais. Esse nível elevado de comprometimento indica que grande parte das famílias já opera no limite financeiro.
A inflação persistente também contribui diretamente para o aumento da inadimplência. Ao reduzir o poder de compra, ela afeta principalmente as camadas de menor renda, que possuem menos margem para absorver aumentos de preços. Como consequência, despesas básicas passam a competir com o pagamento de dívidas, ampliando o risco de atrasos.
No mercado de crédito, o cenário é igualmente desfavorável. Instituições financeiras têm adotado uma postura mais cautelosa, restringindo a oferta de crédito com juros mais baixos. Com isso, consumidores acabam recorrendo a linhas mais caras, o que agrava ainda mais o ciclo de endividamento.
A política monetária também exerce influência direta nesse contexto. A expectativa de manutenção da taxa básica de juros em níveis elevados — com projeção de 12,5% ao final de 2026 — mantém o custo do crédito alto, dificultando a renegociação e a quitação de dívidas.
Além disso, os juros de longo prazo, estimados entre 13% e 14%, reduzem a eficácia de eventuais medidas de estímulo econômico. Mesmo com possíveis reduções pontuais na taxa básica, o impacto sobre o alívio financeiro das famílias tende a ser limitado.
Fatores externos também representam riscos adicionais. Tensões geopolíticas, especialmente no Oriente Médio, podem pressionar os preços de commodities e energia, elevando novamente a inflação. Caso esse cenário se concretize, o custo de vida deve subir, agravando ainda mais a situação financeira da população.
Diante desse conjunto de fatores — juros elevados, inflação persistente e crédito restrito —, especialistas avaliam que a inadimplência deve permanecer em patamares elevados no curto prazo. Sem mudanças estruturais na economia, a tendência é de continuidade desse cenário desafiador para milhões de brasileiros.
Da redação Mídia News





