
A combinação de juros elevados, crédito mais caro e crescimento da inadimplência está aumentando a pressão sobre empresas e consumidores brasileiros. Dados recentes mostram que mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam negativados em junho de 2026, acumulando aproximadamente R$ 232,9 bilhões em dívidas vencidas, os maiores valores da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2016.
O problema empresarial ocorre paralelamente ao aumento das recuperações judiciais. Entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, o número de empresas nessa situação passou de 3.823 para 6.341, avanço de 65,8%. Agronegócio, transporte, logística e varejo aparecem entre os segmentos mais pressionados.
Os números ajudam a dimensionar uma espécie de efeito dominó. Empresas com dificuldades para pagar fornecedores, bancos e impostos encontram crédito mais caro justamente quando precisam reforçar o caixa. Com menos recursos disponíveis, investimentos podem ser adiados, contratações são reduzidas e aumenta o risco de fechamento de negócios.
A situação também preocupa no orçamento das famílias. Levantamento da CNDL e do SPC Brasil apontou 75,08 milhões de consumidores com contas atrasadas em julho, equivalentes a 44,75% da população adulta. Já levantamentos baseados em dados da Serasa utilizam metodologia diferente e apontam contingente superior a 80 milhões de brasileiros inadimplentes, razão pela qual os números não devem ser tratados como diretamente equivalentes.
O ambiente de juros elevados agrava esse quadro porque aumenta o custo da renegociação e da rolagem das dívidas. Instituições financeiras também tendem a ficar mais rigorosas na concessão de novos empréstimos diante do aumento do risco de calote. Pesquisa do Banco Central indica expectativa do setor bancário de deterioração da inadimplência e manutenção de condições restritivas de crédito, principalmente para micro, pequenas e médias empresas.
O varejo é um dos setores que mais sentem os efeitos dessa combinação. Grandes redes vêm recorrendo a processos de reestruturação, enquanto negócios menores muitas vezes não possuem estrutura financeira para suportar longos períodos de crédito caro e consumo enfraquecido. Entre 2023 e 2026, grandes varejistas acumularam dezenas de bilhões de reais em dívidas submetidas a processos de recuperação judicial ou extrajudicial.
Os R$ 232,9 bilhões em débitos empresariais atrasados, portanto, são apenas uma parte do problema. A principal preocupação é a formação de um ciclo em que inadimplência reduz o acesso ao crédito, crédito restrito limita investimentos e consumo, e a desaceleração da atividade aumenta novamente a dificuldade para empresas e famílias pagarem suas contas.
Romper essa engrenagem dependerá da trajetória dos juros, da renda, da atividade econômica e das condições oferecidas para renegociação das dívidas. Enquanto esses indicadores permanecerem pressionados, a inadimplência continuará sendo um dos principais sinais de alerta para a economia brasileira.
Da redação Mídia News Campo Grande





