O telefone toca. Na tela aparece um número desconhecido. Você atende e ninguém responde. Em outros casos, a ligação cai depois de poucos segundos. Horas mais tarde, outro número liga. Depois outro. E mais outro.
O fenômeno das chamadas indesejadas no Brasil não é apenas uma sensação do consumidor. Os números ajudam a revelar a dimensão do problema. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as medidas adotadas pelo órgão fizeram com que cerca de 248 bilhões de chamadas deixassem de ser realizadas, além de provocarem mais de 1.200 bloqueios de empresas e quase R$ 40 milhões em multas.
Mas existe uma pergunta fundamental por trás desse gigantesco volume: por que alguém tem interesse em ligar tantas vezes para o seu telefone?
A resposta passa por diferentes mercados — alguns legais, outros abusivos e outros claramente criminosos. Não existe evidência pública suficiente para atribuir todo esse ecossistema a uma única “indústria bilionária”. O que existe é uma cadeia econômica enorme envolvendo telecomunicações, centrais de atendimento, cobrança, vendas, tecnologia, bases de dados e, paralelamente, organizações criminosas especializadas em fraudes.
A ligação de três segundos pode ter valor
Uma das explicações para as chamadas que ficam mudas ou são encerradas rapidamente são as chamadas automatizadas, conhecidas como robocalls.
Sistemas conseguem disparar milhares ou milhões de telefonemas praticamente sem intervenção humana. Em alguns modelos de operação, o objetivo inicial nem sequer é conversar com o consumidor.
A própria Anatel identifica entre as origens das chamadas abusivas empresas que analisam listas de telefones para descobrir quais números têm maior probabilidade de serem atendidos, prática conhecida como “prova de vida”.
Isso significa que simplesmente atender pode fornecer uma informação comercialmente útil: aquele número existe e alguém costuma atender.
Em 2022, antes das primeiras medidas mais duras da Anatel, chegaram a ser registradas 4,08 bilhões de chamadas curtas em apenas uma semana, dentro de um universo de 6,33 bilhões de ligações analisadas naquele período.
O telefone virou uma máquina de prospecção
Para empresas legítimas, cada ligação pode representar uma oportunidade de venda, cobrança ou recuperação de cliente.
Softwares de discagem preditiva conseguem telefonar simultaneamente para grandes quantidades de pessoas. Quando alguém atende, o sistema pode encaminhar a chamada para um operador disponível.
A automação reduz drasticamente o custo de encontrar um potencial cliente.
Mesmo que apenas uma pequena parcela das pessoas chamadas aceite conversar e uma fração ainda menor compre determinado produto, contrate crédito, renegocie uma dívida ou feche um serviço, a operação pode funcionar economicamente quando realizada em enorme escala.
É a lógica do volume.
Seus dados ajudam a aumentar o valor da ligação
Existe ainda outra peça essencial nesse mercado: os dados pessoais.
Nome, telefone, idade, localização aproximada, profissão, hábitos de consumo e relacionamento com determinadas empresas podem permitir campanhas muito mais direcionadas.
Mas possuir ou comercializar informações pessoais não significa automaticamente que qualquer utilização seja permitida.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento dessas informações. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados explica, por exemplo, que o chamado “legítimo interesse” exige finalidade legítima, específica e concreta e deve respeitar os direitos e a expectativa legítima do titular.
Bases obtidas ilegalmente, vazamentos e dados provenientes de crimes entram em outro terreno.
E é justamente aí que o problema comercial pode se encontrar com a fraude.
Quando a ligação deixa de ser publicidade e vira golpe
Os mesmos recursos tecnológicos que permitem uma operação legítima de atendimento podem ser explorados por criminosos.
Um exemplo é o spoofing, técnica usada para alterar ou falsificar a identificação apresentada ao destinatário da chamada. A prática dificulta descobrir quem realmente originou a ligação e pode fazer aparecer na tela um número diferente daquele efetivamente utilizado.
Em setembro de 2026, a Anatel anunciou medidas cautelares contra empresas relacionadas à originação ou ao transporte de volume relevante de chamadas com indícios de spoofing.
A fraude fica ainda mais perigosa quando o criminoso já possui informações sobre a vítima.
Nome completo, CPF, banco utilizado ou outros dados podem dar credibilidade à abordagem.
É assim que funciona uma parte dos golpes da chamada falsa central bancária. O criminoso telefona fingindo representar uma instituição financeira, relata uma suposta movimentação suspeita e tenta convencer a vítima a entregar informações, instalar programas ou transferir dinheiro.
A Febraban alertou em julho de 2026 que essas fraudes vêm utilizando inclusive recursos tecnológicos capazes de simular números de instituições.
Pesquisa divulgada pela entidade mostrou que, entre setembro de 2024 e março de 2025, o percentual de entrevistados que relatava ter sido vítima de golpe ou tentativa de golpe passou de 33% para 38%. O golpe da falsa central apareceu entre os mais citados, com 26%.
A tecnologia começa a reagir
A batalha agora também é tecnológica.
Desde 2025 está disponível no Brasil uma estrutura de autenticação de chamadas baseada em tecnologias como STIR/SHAKEN, que permite verificar se o número apresentado realmente corresponde à origem da chamada. O sistema também pode exibir informações sobre a empresa que está telefonando.
A Anatel tornou obrigatória a autenticação para grandes chamadores, definidos como aqueles que originam mais de 500 mil chamadas mensais por prestadora.
Em agosto de 2026, a Agência também estabeleceu parâmetros para ampliar mecanismos de filtragem e bloqueio automático de chamadas massivas pelas operadoras.
E o 0303?
O prefixo 0303 foi criado justamente para facilitar a identificação das chamadas de telemarketing ativo.
A regulamentação, porém, mudou. Em agosto de 2025, a Anatel decidiu tornar facultativo o uso do 0303.
Por isso, atualmente, uma ligação comercial não necessariamente aparecerá com esse prefixo.
Como reduzir as chamadas
O consumidor pode cadastrar gratuitamente seu telefone no Não Me Perturbe, plataforma utilizada para restringir determinadas chamadas publicitárias. O bloqueio, entretanto, não cobre todas as modalidades de ligação — cobranças e contatos de prevenção a fraudes, por exemplo, possuem tratamento diferente.
Também é possível utilizar ferramentas de bloqueio do próprio celular e consultar serviços de identificação de empresas responsáveis pelas chamadas.
No caso de supostas ligações bancárias, a recomendação é ainda mais simples: não forneça senhas, códigos ou dados financeiros, não instale aplicativos solicitados durante a chamada e não realize transferências por orientação de quem telefonou. Em caso de dúvida, encerre a ligação e procure a instituição pelos canais oficiais.
O verdadeiro produto pode ser a sua atenção
A chamada fantasma aparentemente não vende nada.
Mas ela pode testar se um telefone está ativo. Uma central pode tentar localizar um consumidor. Uma empresa pode procurar um comprador. Uma cobradora pode buscar um devedor. E um criminoso pode estar procurando uma vítima.
São atividades diferentes e não devem ser colocadas no mesmo grupo.
O ponto em comum é que um número de telefone ativo, associado a informações sobre seu titular e a uma pessoa disposta a atender, possui valor econômico.
É por isso que seu telefone continua tocando.
Por trás de alguns segundos de silêncio pode existir uma infraestrutura tecnológica capaz de realizar centenas de milhares de chamadas. E, quando essa capacidade de automação encontra grandes bancos de dados e modelos de negócio baseados em escala, uma simples ligação deixa de ser apenas um telefonema.
Ela se transforma em informação.
Da redação Mídia News Campo Grande

