
Pesquisadores brasileiros deram um passo relevante na busca por novas estratégias de enfrentamento da doença de Alzheimer ao desenvolverem uma terapia experimental inspirada no veneno de uma vespa nativa do Brasil, o marimbondo-estrela (Polybia occidentalis). O estudo, conduzido por cientistas da Universidade de Brasília (UnB) e publicado no início de 2025 na revista científica Proteins, aponta que moléculas derivadas desse veneno podem atuar diretamente sobre um dos principais mecanismos envolvidos na progressão da doença: a formação das placas de proteína beta-amiloide no cérebro.
Essas placas se acumulam entre os neurônios, prejudicando a comunicação neural e desencadeando processos inflamatórios que levam à morte celular e ao declínio cognitivo progressivo. A possibilidade de impedir sua formação ou promover sua desagregação coloca a pesquisa brasileira em sintonia com as chamadas terapias antiamiloides, atualmente consideradas a abordagem mais promissora no tratamento do Alzheimer em estágios iniciais.
O estudo analisou duas moléculas específicas, a octovespina e a fraternina-10, que demonstraram capacidade de interagir com as placas amiloides. Ensaios laboratoriais e simulações computacionais indicaram que essas substâncias podem modificar a estrutura das proteínas associadas à doença. Em testes com modelos animais, a octovespina apresentou resultados mais consistentes, reduzindo o acúmulo das placas e melhorando sintomas ligados à memória. Já a fraternina-10 teve desempenho mais limitado, o que reforça a complexidade do funcionamento do cérebro vivo em comparação aos ambientes controlados de laboratório.
A linha de pesquisa não é recente. Há mais de duas décadas, cientistas investigam compostos presentes no veneno de vespas após observarem seus efeitos neurológicos em pequenas presas. A partir desses estudos iniciais, foram desenvolvidas moléculas com potencial anticonvulsivante e neuroprotetor, culminando na criação de versões mais estáveis e seletivas, como a alzpeptidina — uma combinação projetada para ampliar os efeitos terapêuticos.
No Brasil, o uso clínico de terapias antiamiloides ainda é recente. Apenas em abril de 2025 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o primeiro medicamento dessa classe, o donanemabe, comercializado como Kisunla. Segundo especialistas, como o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Israelita Albert Einstein, essas terapias não representam uma cura, mas podem retardar a progressão da doença e preservar por mais tempo a autonomia dos pacientes.
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que ainda há um longo caminho até a aplicação clínica das moléculas derivadas do veneno. Serão necessários estudos adicionais sobre segurança, toxicidade, dosagem e formas de administração antes do início de testes em humanos. O esforço, no entanto, é considerado estratégico diante do avanço do envelhecimento populacional. Dados do Ministério da Saúde indicam que o número de brasileiros com doenças neurodegenerativas pode saltar de 1,8 milhão, em 2019, para 5,7 milhões até 2050, ampliando os impactos sociais, econômicos e familiares da condição.
Da redação Mídia News


