
Em 2021, centenas de médicos brasileiros e o então presidente Jair Bolsonaro foram duramente criticados por autoridades, setores da imprensa e parte significativa da opinião pública por discordarem de aspectos das políticas adotadas para enfrentar a pandemia da Covid-19, como lockdowns, isolamento social e obrigatoriedade do uso de máscaras em determinadas situações.
Também houve intenso embate em torno da chamada autonomia médica e do uso de medicamentos reposicionados, como ivermectina e cloroquina, além da suplementação de vitamina D.
É necessário, contudo, fazer uma distinção que os fatos e o conhecimento acumulado desde então exigem. As evidências científicas disponíveis não permitem afirmar que ivermectina ou cloroquina tenham demonstrado eficácia capaz de reduzir de forma comprovada a mortalidade pela Covid-19. Da mesma maneira, não há base científica consolidada para afirmar que milhares de mortes teriam sido evitadas caso esses medicamentos tivessem sido utilizados de maneira generalizada.
Isso, entretanto, não elimina outra discussão igualmente importante: se médicos, pesquisadores, governantes e cidadãos que questionaram determinadas políticas sanitárias foram tratados de maneira adequada e se houve espaço suficiente para o contraditório durante uma das maiores crises sanitárias da história recente.
Em 2026, esse debate ganhou novos elementos nos Estados Unidos.
Documentos divulgados pelo governo americano reacenderam questionamentos sobre a atuação do infectologista Anthony Fauci, que comandou durante décadas o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) e se tornou uma das figuras mais influentes da resposta americana à pandemia.
A atual direção da Inteligência Nacional dos Estados Unidos acusa Fauci de ter exercido influência sobre discussões e avaliações relacionadas à origem do SARS-CoV-2 e sustenta que recursos públicos americanos financiaram, por intermédio da EcoHealth Alliance, pesquisas envolvendo coronavírus de morcegos realizadas em Wuhan, na China.
Essas revelações merecem investigação rigorosa. Mas também é preciso registrar que permanece controversa a conclusão de que o SARS-CoV-2 tenha necessariamente escapado de um laboratório. Agências americanas passaram a considerar a hipótese de um incidente laboratorial plausível — algumas delas como a explicação mais provável —, porém avaliações anteriores, como a da CIA, foram feitas com baixo grau de confiança. Portanto, ainda não existe consenso definitivo sobre a origem do vírus.
O que aconteceu posteriormente com Fauci tornou o debate ainda mais intenso.
Em depoimento ao Senado americano, no fim de julho de 2026, Fauci invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege uma pessoa contra a obrigação de produzir declarações que possam incriminá-la. Foram mais de cem recusas em responder a perguntas dos senadores.
O exercício desse direito constitucional não representa, juridicamente, confissão de culpa. Mas é inevitável que provoque questionamentos políticos e públicos quando exercido por alguém que ocupou posição tão relevante durante uma crise que modificou a vida de bilhões de pessoas.
Dias depois, em 6 de agosto, a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado americano aprovou, por votação partidariamente dividida, uma resolução considerando Fauci em desacato ao Congresso por sua recusa em responder aos questionamentos.
Para quem acompanhou criticamente a condução da pandemia, esses acontecimentos obrigam a revisitar questões que, durante muito tempo, foram tratadas como encerradas.
No Brasil, o ambiente daquele período também foi extremamente polarizado.
Médicos que defenderam tratamentos alternativos ou questionaram determinados protocolos passaram a enfrentar críticas públicas severas. Nomes como Roberto Zeballos, José Nasser e Edimilson Migowski estiveram entre profissionais que defenderam abordagens diferentes daquelas adotadas por grande parte das autoridades sanitárias.
Pode-se discordar cientificamente dessas posições — e os estudos posteriores efetivamente contrariaram várias das expectativas depositadas em medicamentos como cloroquina e ivermectina — sem considerar ilegítimo o debate sobre liberdade acadêmica, autonomia médica e os limites da atuação do Estado.
O uso off-label de medicamentos, por exemplo, não nasceu durante a pandemia. Trata-se de uma prática existente na medicina, na qual um medicamento aprovado é prescrito para indicação diferente daquela originalmente registrada. Isso não significa, entretanto, que todo uso off-label seja automaticamente eficaz ou apropriado: a decisão deve considerar evidências científicas, avaliação médica, riscos e benefícios para cada paciente.
A vitamina D também merece tratamento cuidadoso. Sua importância para o organismo e para diferentes funções fisiológicas é amplamente reconhecida, e estudos encontraram associação entre deficiência de vitamina D e quadros mais graves de Covid-19. Associação, contudo, não significa necessariamente causalidade, e as evidências disponíveis não autorizam afirmar que sua suplementação tenha sido um tratamento comprovadamente capaz de impedir mortes pela doença.
Jair Bolsonaro tornou-se o principal personagem político brasileiro desse conflito.
Ao defender medicamentos reposicionados, criticar medidas restritivas e sustentar que médicos deveriam ter liberdade para decidir tratamentos juntamente com seus pacientes, Bolsonaro enfrentou algumas das críticas mais duras dirigidas a um presidente da República durante a história recente brasileira.
Discordar das posições adotadas por Bolsonaro é legítimo. Transformar divergências científicas e políticas em condenações antecipadas é algo que uma sociedade democrática deveria analisar com muito mais cuidado.
O mesmo vale para os lockdowns.
As medidas de restrição de circulação foram adotadas em diferentes graus por governos de praticamente todo o mundo diante de uma emergência sanitária sem precedentes. Estudos apontam efeitos dessas intervenções sobre a transmissão da doença, mas também existe extensa discussão sobre seus custos econômicos, educacionais, psicológicos e sociais.
No Brasil, esses efeitos foram particularmente duros para trabalhadores informais, pequenos empresários e famílias de baixa renda. Empresas construídas ao longo de décadas fecharam as portas, crianças permaneceram longos períodos afastadas presencialmente das escolas e milhões de pessoas tiveram suas rotinas profundamente alteradas.
Reconhecer essas consequências não significa negar a gravidade da Covid-19, que matou milhões de pessoas em todo o mundo. Significa admitir que decisões tomadas durante uma emergência também precisam ser examinadas posteriormente, quando existem mais informações disponíveis.
É justamente esse exame que os acontecimentos de 2026 tornam novamente necessário.
Se autoridades erraram, devem explicar seus atos. Se pesquisadores foram injustamente silenciados, isso precisa ser reconhecido. Se acusações feitas durante a pandemia não resistiram ao tempo, também devem ser revistas. E, da mesma forma, tratamentos que posteriormente não demonstraram os benefícios inicialmente esperados não devem ser apresentados agora como soluções comprovadas.
A verdade científica não deveria pertencer à direita nem à esquerda. Ela deve ser construída com evidências, transparência, contraditório e disposição permanente para corrigir erros.
Talvez a maior lição da pandemia seja justamente esta: numa crise daquela dimensão, certezas absolutas podem ser tão perigosas quanto a recusa em reconhecer evidências.
Por isso, diante dos documentos divulgados nos Estados Unidos, das investigações sobre a origem do vírus e dos questionamentos que agora cercam Anthony Fauci, algumas perguntas permanecem legítimas.
Houve erros que poderiam ter sido evitados? Houve excessos na maneira como o debate científico foi conduzido? Houve pessoas injustamente condenadas pela opinião pública simplesmente por fazerem perguntas?
E, se houve, quem estará disposto a reconhecer esses erros?
A História ainda está escrevendo essa resposta.
*Jornalista, Professor e Escritor
Autor do livro: Reflexões e Memória


