Clínicas de morte assistida avançam nos EUA e cobram até US$ 12 mil por paciente
Em Nova York, a Quietus afirma ter participado de 15 mortes desde agosto; críticos alertam para os riscos de transformar a assistência ao fim da vida em um negócio lucrativo

O crescimento de clínicas especializadas em morte medicamente assistida nos Estados Unidos está provocando uma intensa discussão sobre ética médica, direitos individuais e os riscos de exploração financeira de pacientes em estado terminal. Chamados por críticos de “clínicas de extermínio”, esses estabelecimentos oferecem serviços que podem custar até US$ 12 mil, aproximadamente R$ 64 mil, dependendo da cotação do dólar.
Um dos casos que mais chamam a atenção é o da Quietus, organização criada em agosto de 2026, em Nova York, após a entrada em vigor da legislação estadual que autoriza a assistência médica para morrer em determinadas circunstâncias.
Segundo David Atkins, integrante da equipe e ex-profissional de cuidados paliativos, 15 pacientes já morreram após utilizar os serviços da organização. Outras 40 a 50 pessoas procuraram atendimento ou foram encaminhadas à instituição.
O número de mortes foi informado pela própria clínica e ainda não possui confirmação independente por meio de estatísticas oficiais.
Serviços podem custar milhares de dólares
A Quietus oferece acompanhamento médico, avaliações psicológicas, orientação aos familiares e assistência durante o processo de morte medicamente assistida.
O custo informado chega a US$ 11 mil pelos serviços, além de aproximadamente US$ 1 mil pelos medicamentos utilizados.
Em outros estados americanos, como Califórnia e Novo México, existem prestadores que anunciam serviços semelhantes por valores entre US$ 2.500 e US$ 3 mil.
A expansão desse mercado levanta questionamentos sobre a possibilidade de interesses comerciais influenciarem decisões médicas relacionadas ao fim da vida.
Críticos denunciam riscos para pacientes vulneráveis
Jessica Rodgers, representante do Patient’s Rights Action Fund, organização contrária ao suicídio assistido, manifestou preocupação com o surgimento de empresas especializadas nesse tipo de atendimento.
Para os opositores, a possibilidade de obter receitas elevadas com procedimentos de morte assistida pode criar incentivos financeiros inadequados, especialmente quando os pacientes enfrentam doenças graves, sofrimento emocional ou dificuldades econômicas.
Os críticos também questionam se pessoas vulneráveis poderiam sentir pressão para antecipar a própria morte, em vez de receber cuidados paliativos e assistência médica prolongada.
Até o momento, porém, não foram apresentadas evidências públicas conclusivas de que a Quietus tenha descumprido as exigências legais ou pressionado pacientes a utilizar seus serviços.
Legislação estabelece critérios para autorização
Em Nova York, a assistência médica para morrer está sujeita a regras específicas.
Os pacientes devem ser maiores de idade, apresentar doença terminal com expectativa de vida de até seis meses e passar por avaliações médicas e de saúde mental.
A legislação também estabelece procedimentos de documentação e períodos de espera. Os medicamentos devem ser administrados pelo próprio paciente, diferentemente da eutanásia praticada diretamente por um profissional de saúde.
Defensores da legislação argumentam que a possibilidade de escolher as circunstâncias do fim da vida representa uma forma de preservar a autonomia e a dignidade de pessoas que enfrentam doenças irreversíveis.
Já os opositores sustentam que nenhuma regulamentação consegue eliminar completamente os riscos de pressão familiar, interesses financeiros ou decisões tomadas em momentos de fragilidade.
Canadá amplia debate internacional
A discussão também envolve o Canadá, onde a assistência médica para morrer foi legalizada em 2016.
Em 2024, o país registrou 16.499 mortes por meio desse sistema, o equivalente a aproximadamente 5,1% de todos os óbitos nacionais.
A legislação canadense possui critérios diferentes dos adotados em Nova York e não exige, em todos os casos, que a morte natural esteja próxima.
Um caso envolvendo Brigitte Stegemann, de 83 anos, em Ontário, também provocou questionamentos após familiares alegarem que ela não teria manifestado consentimento final para o procedimento.
Os profissionais envolvidos sustentam que os requisitos legais foram cumpridos. As alegações da família não devem ser tratadas como fatos comprovados enquanto não houver conclusão das investigações.
Expansão reacende discussão sobre os limites da medicina
A criação de organizações especializadas em morte assistida representa uma mudança importante na forma como alguns estados americanos lidam com pacientes em fase terminal.
Embora a prática seja autorizada apenas em determinadas jurisdições e sob condições específicas, o surgimento de prestadores privados amplia o debate sobre fiscalização, transparência e proteção das pessoas vulneráveis.
A principal preocupação dos críticos está na possibilidade de que decisões envolvendo a vida humana passem a sofrer influência de interesses econômicos.
Por outro lado, defensores da morte medicamente assistida afirmam que a existência de serviços regulamentados pode garantir acompanhamento profissional e respeito à vontade de pacientes que atendam aos requisitos legais.
O desafio das autoridades será assegurar que a autonomia individual seja respeitada sem comprometer a proteção de pessoas em situação de fragilidade física, psicológica ou financeira.
Da redação Mídia News Campo Grande





