“-Ao ver o abandono tão perto de mim,
que dava até para lamber,
resolvi puxar o alarme,
mas… o alarme não funcionou!”
Manoel de Barros.
Nas longas viagens pelas madrugadas nas velhas bitolas areientas da Fazenda Ypiranga, antes de subir na MS 214 rumo ao Porto São Pedro, veio-me um pensamento que mostra crucial diferença das fazendas pioneiras de criação pantaneiras e os depoimentos de atraídos por favores dos Governos para os cerrados do Centro Oeste.
Característica de todos depoimentos desses migrantes para estes cerrados do Planalto Central , o visível orgulho e a vaidade comum por terem amealhado fortunas, usando os mesmos termos ABRIR fazendas, sempre enumerando-as todas, enquanto os pioneiros pantaneiros usavam o termo FUNDAR fazendas por sempre por sua conta e risco, que iniciava pela ação de conswguir recirdos para FECHAR o perímetro aberto da Fazenda.
Enquanto o financiamento dos sucessivos PRODECER I, II, III e IV financiavam a abertura dos cerrados do Planalto, o Pantanal viu sua economia fechada após período favorável de seca, onde acumulara milhões de bovinos, com advento de previsivel período de cheia, foi imediatamente planejado o “alívio” desse super rebanho, a preço tão vil que compensava até fretar velhos aviões cargueiros para retirá-los voando.
O perfeito triângulo defensivo planificado estrategicamente desde a Universidade de Coimbra, onde as cidades pantaneiras Corumbá, Cáceres e Poconé, depois de assegurarem a expansão do Brasil a Oeste de Tordesilhas, cumprida essa função cívica primordial, conseguiu desenvolver ao longo de séculos uma cultura economica sustentável baseada na criação pastoril, absorvendo aspectos das comunidades campesinas da Europa, África e Ásia, reencontrando esses mesmos conhecimentos coletivos atávicos na América tribal.
No Pantanal, portanto, quando se fundava uma fazenda, se erigia algo naturalmente arriscado por integrar-se num meio natural, onde a estabilidade prima pela instabilidade, quando esse projeto é mergulhado nos prejuízos duma enchente repentina, se não afogar nem bater em retirada como tantos fizeram, eis que vai emergir, batizado para uma nova vida como pantaneiro.
Para não ficar muito extenso compilamos somente alguns antônimos mais comuns: abrir e fundar, enchente e cheia normal, alta velocidade de rolamento e assoreamento, vida fácil e dificil, 1 boca, 4 pés e quatro estômagos do boi bombeiro × reaervas importadas, APPs desses Parques e reservas e
APPs de fazendas, modesta comparação entre o pantaneiro criador nas planícies e o agro negócio exportador nos cerrados do Planalto Central:
Abrir fazenda no planalto, portanto, equivale a fundar fazenda na planície ;
Enchente no planalto problema de todos e socorro imediato, enchente na planície, problema desse povo que insiste em continuar lá;
Seca no planalto, culpa das mudanças climáticas, na planície foi porque furaram poços e rebaixou o lençol freático;
Planalto alto caindo 700 metros em poucos quilometros, planície baixa média de 1 centímetro a cada quilômetro;
Estradas, eletridade, saúde, educação e apoio político nas dívidas tornam a vida fácil no planalto e difícil, muito difícil nas lonjuras das planícies pantaneiras;
Muitos urbanóides acham que pantanal cheio de gado, como sempre foi muito bom para sua natureza campestre, tornou-se mau diante das propagandas da moderna especulação e expropriação visando commodities ambientais existentes;
Onde na planície a inundação havia se inviabilizado a criação de gado ficou cheio de parques e reservas, mas as APPs e matas ciliares de seus rios e baías, estão vazias de vida.
Eu, como outros pantaneiros, tive que fechar minha fazenda por conta da barragem do Taquari assoreado, e agora aguardo por cumprirem as diretrizes técnico científicas do PCBAP Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai, que terraplanistas e negacionistas, em eterno e midiático plantão, insistem em preferir barragens na Planície, inviabilizando a criação pecuária sustentável, sustentando guerra com PCHs e barragens no Planalto, única fórmula técnica viável para
mitigar a velocidade de Rolamento das águas e recarregar por Infiltração os aquíferos dos rios subterrâneos e, por Evaporação, os rios voadores, verdadeiras fontes da vida e da umidade no Pantanal.
O Pantanal expõe, nunca supõe e impõe!
Armando Arruda Lacerda
Porto São Pedro




