
Todos os homens da fazenda tiveram que seguir no rumo do retiro, para trabalhar o gado de lá com urgência, durante passagem de uma boiada cuiabana rumo ao Porto Rolon, houve um desentendimento na comitiva e o gado em viagem amanhecera entreverado no gado da Fazenda.
Ficou na sede da fazenda somente o velho praieiro Feliciano, para cuidar das mulheres, crianças e das vacas, bezerros de leite e guachos.
A tarde, chegou o cozinheiro de comitiva serrana, muitos burros carregados com bruacas , Feliciano tinha ido tocar as vacas de leite na Invernadinha e ele chegou até a sede, e minha mãe o atendeu, indicou o lugar para soltar a tropa, montar o acampamento e liberou o mangueiro para o pouso.
A boiada chegou com estrépito de gritos , estalos de piraim e em vez de se acomodar, notou-se o aumento dos gritos , gargalhadas e um comportamento anormal por parte de uma comitiva cansada da jornada.
Como prevenção, minha mãe determinou a um guri mais esperto que fosse assuntar o que estava ocorrendo.
Ele trouxe a notícia: O guardião Feliciano jazia emborcado na varanda do galpão dos solteiros, feliz com uma garrafa de caninha nos braços, e a comitiva toda estava bebendo e se comportando moda estivessem numa festa.
A matriarca determinou que o menino convocasse todas as mulheres e crianças para virem imediatamente para a casa sede.
Juntas, jantaram cedo, acomodaram as crianças e passaram a desfiar o terço, frente ao oratório na sala.
Logo que a noite fechou, pancadas enérgicas na porta da sala e uma voz tonitroante: “- Dona, Dona, abram a porta, queremos que façam uma janta para nós!”
Por cima das orações, a voz enérgica se elevou: “- Ponha-se no seu lugar! Tenho como te ensinar respeito” e quebrando o repentino silêncio, ouviou-se o inconfundível barulho do engatilhar da 44 papo amarelo…
“-Sim senhora, Dona! Queira adiscurpar!” E ouviram passos tropegos a se afastar…
A vigília de orações durou toda a noite e a casa só se abriu quando jm acabrunhado Feliciano , insistou para entregar o balde de leite, informando que a comitiva e a boiada haviam partido silenciosamente em plena madrugada
Perceberam a tempo que todas aquelas mulheres pioneiras de pastoralismo tradicional pantaneira estavam armadas e sabiam perfeitamente como usá-las em sua defesa.
No distante Pantanal de Mato Grosso, vigorava não a Lei do mais forte, mas sim o respeito que os inferiorizados fisicamente alcançavam pela igualdade proporcionada, quando homens e mulheres portavam e sabia manusear uma 44 ou uma flobé 22…
O Pantanal expõe, mas nunca impõe.
Armando Arruda Lacerda
Porto São Pedro




