
Conheci Hebe há cerca de 40 anos, quando eu ainda era adolescente e frequentava sua casa, já que ela era mãe da minha melhor amiga, que continua sendo até hoje. Naquela época, mesmo sem compreender inteiramente a dimensão da artista que ela era, eu já me encantava com o universo que habitava aqueles espaços. Desenhos em pastel, telas, esculturas em madeira, painéis… Tudo carregava uma identidade muito própria, uma paleta de cores tão particular e uma maneira de olhar o mundo que só poderia ser dela. Hebe já era extraordinária, e talvez nem todos nós soubéssemos o quanto.
O tempo passou e, naturalmente, deixamos de ser apenas pessoas ligadas por uma relação familiar e nos tornamos amigos. Amigos de longas conversas, de compartilhar assuntos, descobertas, lugares, experiências, sabores e até viagens. Uma amizade construída sem pressa, dessas que vão ganhando profundidade e significado com o passar dos anos.
Hebe também teve um papel muito especial na minha trajetória de autoconhecimento. Ela me acolhia com uma facilidade impressionante, aceitava quem eu era, sem exigências ou julgamentos. Às vezes, tinha a sensação de que ela me enxergava e me aceitava até mais do que eu mesmo conseguia. E isso é um presente raro que alguém pode oferecer a outra pessoa: a liberdade de simplesmente ser.
Hebe era, definitivamente, uma mulher à frente do seu tempo. Há mais de 30 anos, já carregava sua inseparável frasqueira de suplementos, uma verdadeira praça de alimentação particular, com ômegas, azeites e farelos de superalimentos. Enquanto muita gente ainda nem sabia do que se tratava, ela já estava lá, experimentando, pesquisando, descobrindo. Hebe era do futuro! E não apenas nos hábitos, mas na maneira de pensar, de criar, de viver e de se relacionar com o mundo.
Era também muito consciente do quanto estava apegada a esta vida. Cultivava uma vaidade linda, daquelas que não se confundem com superficialidade, mas que revelam amor por si mesma, pelo corpo, pela existência e pelo prazer de estar aqui.
Hebe queria viver muito. Muito mesmo! Se pudesse, viveria pelo menos mil anos. Mil anos de Pantanal, de primaveras, de pássaros, bichos, árvores, sons, cores, aromas e descobertas. Provavelmente, morando em um ninho de tuiuiú, como ela mesma costumava dizer.
E é justamente por saber o quanto ela amava estar aqui que me chamou a atenção a coincidência de sua partida acontecer em uma época tão simbólica.
Algumas culturas acreditam que, a partir do dia 31 de outubro, um portal se abre e permite que as almas que já partiram retornem para visitar aqueles que amaram. Permanecem entre nós até o final do dia 2 de novembro, reencontrando seus entes queridos, matando as saudades e revivendo, de alguma maneira, os sabores, os aromas, as músicas e os lugares que fizeram parte de suas vidas.
Há tradições que recebem essas almas preparando justamente aquilo de que elas mais gostavam: comidas, bebidas, doces, flores e música. Uma maneira bonita de dizer que o amor não esquece os detalhes.
E tenho para mim que Hebe, sendo tão especial, não poderia ter feito essa passagem sem uma recepção à altura.
Imagino que tenha sido recebida por todos aqueles que partiram antes dela: seu pai, sua mãezinha, seu maninho, o grande amor de sua vida, seu amigo artista e tantos outros seres queridos que deixaram saudades e que, certamente, estavam à sua espera.
Gosto de imaginar essa grande reunião. Os abraços, as conversas, as histórias, as risadas e, claro, as cores! Afinal, estamos falando de Hebe. Tenho certeza de que não faltará assunto, nem beleza, nem afeto nessa recepção.
Talvez ela precise desses dois dias para matar as saudades de todos, reconhecer novamente cada rosto, contar suas novidades e descobrir o que há de novo por lá.
Depois, seguirá seu caminho de luz, acompanhada por essas almas tão queridas, rumo ao encontro com o Altíssimo. E gosto de pensar que compreenderá, nessa nova jornada, que a vida não termina com uma partida. Que outros projetos, outras descobertas e outras formas de existência continuam nos aguardando. Que a essência permanece, que o amor nos acompanha e que há sempre novos horizontes a explorar.
Mas confesso que ainda me custa imaginar este mundo sem a presença de Hebe. Sem suas conversas, suas ideias, suas cores, sua curiosidade inesgotável e essa vontade quase teimosa de viver mais e mais e mais.
Talvez seja justamente por isso que esta despedida me pareça tão singular. Ela acontece em uma data em que tantas culturas celebram a proximidade entre os mundos, a memória e a continuidade dos afetos. E gosto de pensar que não se trata de uma coincidência, mas de uma maneira muito particular de Hebe nos lembrar, até na partida, que existem mistérios muito maiores do que aquilo que conseguimos compreender.
Hoje me despeço, por enquanto e por aqui, da minha querida amiga de infância. Embora, pensando bem, como me despedir definitivamente de alguém que continuará tão presente nas minhas lembranças, nas minhas histórias, nas minhas referências e em tantas coisas que aprendi convivendo com ela?
Hebe, obrigado pela arte, pelas conversas, pelos olhares, pelas viagens, pelas descobertas e, sobretudo, pelo acolhimento. Obrigado por ter me enxergado tantas vezes quando eu ainda estava aprendendo a me enxergar.
Que você encontre um céu colorido, cheio de vida, de pássaros, de árvores, de primaveras e de possibilidades. Que não lhe faltem companhia, beleza e novos projetos.
E, se por acaso encontrar um tuiuiú por aí, já sabe: escolha um bom ninho. Você sempre teve planos de morar em um.
Vá em paz, minha querida Hebe.
Você foi, é e continuará sendo uma mulher extraordinária. Uma artista de alma livre, uma amiga inesquecível e, acima de tudo, uma dessas pessoas raras que fazem a vida ser mais bonita para quem teve a sorte de cruzar o seu caminho.
Esta é a minha homenagem pessoal a essa pessoa que, posso dizer, foi verdadeiramente uma grande e especial amiga que tive nesta vida.
Até qualquer dia.
Salim Haqzan
Planeta Terra, 1º de novembro de 2026
HEBE LACERDA
23 de fevereiro de 1936 — 1º de novembro de 2026
Sobre a artista
Hebe Lacerda foi uma artista universal, nascida em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Formou-se pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, na década de 1950, e construiu uma trajetória marcada pela criatividade, pela sensibilidade e por uma produção artística diversificada.
Foi responsável pela criação da logomarca do livro Corumbá Turística e Histórica, publicado em 1978, ano em que a Cidade Branca comemorou seu bicentenário.
Ao longo de sua carreira, realizou inúmeras exposições de suas obras, deixando um importante legado para as artes plásticas e para a cultura.
Em 2009, realizou, em Corumbá, sua última exposição, apresentando uma sequência de sete telas intitulada “A Nova Canção do Amor”.





