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PT sempre foi contra o agro? Agora Lula pede para o setor se ajoelhar

Declaração de Lula reacende debate sobre relação do governo com o agronegócio e sobre os limites entre política pública, apoio eleitoral e independência do produtor rural

A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que integrantes do agronegócio deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele reacendeu uma antiga discussão sobre a relação entre os governos petistas e o setor rural brasileiro.

Em ato de campanha realizado em Florianópolis, em 19 de setembro, Lula relacionou os recursos destinados à agricultura ao apoio político que entende que deveria receber do setor.

A declaração abre uma questão que vai além da disputa eleitoral: recursos públicos destinados ao crédito rural constituem política de Estado e não patrimônio pessoal de quem ocupa a Presidência da República.

PLANO SAFRA E RECURSOS PÚBLICOS

O governo Lula anunciou R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/2027.

O volume é expressivo, mas o Plano Safra constitui uma política pública de crédito rural, estruturada por diferentes fontes de financiamento, instituições financeiras e mecanismos governamentais, incluindo, em determinadas operações, equalização de juros pelo Tesouro.

Portanto, os recursos anunciados não pertencem pessoalmente ao presidente nem a qualquer partido político.

Da mesma forma, agricultores, industriais, comerciantes, trabalhadores, aposentados ou beneficiários de programas públicos não têm obrigação de transformar o acesso a políticas governamentais em apoio eleitoral.

O PESO DO AGRO NA ECONOMIA

Os números recentes ajudam a dimensionar a importância econômica do setor.

Em 2023, primeiro ano do atual governo Lula, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 2,9%, enquanto a Agropecuária avançou 15,1%, segundo dados citados do IBGE.

Em 2025, o PIB brasileiro cresceu 2,3%, enquanto a Agropecuária registrou expansão de 11,7%.

No primeiro trimestre de 2026, considerando os quatro trimestres encerrados naquele período, o setor agropecuário acumulava crescimento de 7,5%, diante de avanço de 2% do PIB total.

Os números não significam que o agronegócio sustente sozinho a economia brasileira. Indústria e serviços possuem participação fundamental. Eles demonstram, porém, a relevância do campo para o crescimento econômico do país.

PT E AGRO TÊM HISTÓRICO DE DIVERGÊNCIAS

Seria impreciso afirmar que todas as políticas adotadas pelos governos do PT foram contrárias ao agronegócio.

Os governos Lula implantaram Planos Safra, mantiveram programas de crédito rural e desenvolveram ações relacionadas à abertura de mercados para produtos brasileiros.

Isso não elimina, entretanto, divergências políticas documentadas entre o PT e importantes entidades e parlamentares ligados ao setor rural.

Entre os exemplos está o debate sobre o marco temporal das terras indígenas. Em 2023, Lula vetou pontos do texto aprovado pelo Congresso. A Frente Parlamentar da Agropecuária atuou pela derrubada dos vetos, e o Legislativo posteriormente restabeleceu parte dos dispositivos.

Também existem divergências históricas envolvendo reforma agrária, ocupações de propriedades, demarcações de terras e legislação ambiental.

Cabe ao produtor avaliar essas posições, assim como os resultados concretos das políticas adotadas por cada governo, para formar sua própria conclusão política.

PRODUÇÃO ENVOLVE RISCO

Existe ainda um aspecto que frequentemente desaparece do debate político: produzir envolve risco.

Seca, excesso de chuva, pragas, oscilações das commodities, custos de fertilizantes, juros e dificuldades de financiamento afetam diretamente o resultado de cada safra.

É o produtor quem investe capital, máquinas e patrimônio, contrata financiamento, emprega trabalhadores e assume o risco econômico da atividade.

Por isso, o acesso a uma política pública de crédito não estabelece relação de submissão entre cidadão e governante.

O AGRO NÃO TEM DONO

O episódio também reforça um princípio importante para a independência política do setor.

O agronegócio não pertence a Lula, ao PT nem deveria pertencer automaticamente a qualquer outro partido ou liderança.

Medidas governamentais favoráveis ao produtor podem ser reconhecidas; decisões consideradas prejudiciais podem ser questionadas. Essa avaliação pode ocorrer independentemente de o governo ser identificado com a esquerda, o centro ou a direita.

Presidentes, ministros e partidos passam. O produtor continua plantando, criando, colhendo, empregando, pagando impostos e contribuindo para a economia.

O presidente da República merece o respeito institucional correspondente ao cargo. Isso, porém, não significa submissão política.

Lula pode apresentar os resultados de seu governo, defender o Plano Safra e buscar apoio eleitoral entre os produtores. O eleitor rural, por sua vez, permanece livre para avaliar esses resultados e decidir seu voto.

Dinheiro público não pertence ao presidente. Política pública não é favor pessoal. E voto não constitui moeda de agradecimento.

Da redação Midia News Campo Grande

Flávio Fontoura

Flávio Fontoura é jornalista, fundador e editor-chefe deste portal, onde assina a maioria das reportagens. utiliza sua expertise no setor audiovisual e sua visão empreendedora para liderar a linha editorial do site, unindo o rigor da informação à dinâmica da produção de conteúdo moderno.

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