
O governo brasileiro abriu formalmente o processo que poderá resultar na aplicação de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos, após as novas tarifas impostas pelo governo do presidente Donald Trump aos produtos do Brasil. A decisão coloca o país diante de uma estratégia já utilizada por outras grandes economias que enfrentaram aumentos de tarifas norte-americanas.
Nesta sexta-feira (14), o Itamaraty notificou oficialmente o governo dos Estados Unidos sobre o início das consultas relacionadas à Lei da Reciprocidade Econômica. A comunicação foi encaminhada ao Departamento de Estado, ao Departamento de Comércio e ao USTR, órgão responsável pela política comercial norte-americana.
As medidas dos Estados Unidos atingem aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, envolvendo cerca de US$ 7,4 bilhões em mercadorias. Dependendo do produto, as tarifas adicionais podem chegar a 37,5%.
China respondeu com tarifas
A China está entre os países que adotaram respostas mais firmes às medidas comerciais de Washington. Durante os confrontos tarifários com os Estados Unidos, Pequim aplicou sobretaxas sobre produtos norte-americanos e utilizou outros instrumentos comerciais.
O resultado foi uma escalada das tensões, com aumento da incerteza para empresas, alterações nas cadeias de fornecimento e sucessivas rodadas de negociação. A experiência chinesa mostra que a retaliação pode ampliar o poder de barganha, mas também eleva os custos econômicos para os dois lados.
Canadá também retaliou
O Canadá seguiu caminho semelhante. Em março de 2025, depois das tarifas norte-americanas sobre aço e alumínio, o governo canadense respondeu com tarifas de 25% sobre centenas de produtos dos Estados Unidos. Parte das contramedidas acabou posteriormente suspensa para mercadorias enquadradas nas regras comerciais da América do Norte.
A disputa provocou incerteza entre empresas dos dois países e aumentou a pressão para que Washington e Ottawa buscassem soluções negociadas.
União Europeia priorizou negociação
A União Europeia também enfrentou ameaças e tarifas norte-americanas, mas adotou uma estratégia que combinou preparação de contramedidas com negociações. A experiência europeia reforçou a percepção de que grandes parceiros comerciais podem usar a ameaça de reciprocidade como instrumento de pressão sem necessariamente implementar imediatamente todas as medidas disponíveis.
No Brasil, essa parece ser, inicialmente, a estratégia adotada pelo governo.
A abertura do processo previsto na Lei da Reciprocidade não significa que novas tarifas contra produtos norte-americanos serão aplicadas imediatamente. O governo pretende consultar setores empresariais e avaliar os possíveis efeitos sobre preços, empregos, investimentos e cadeias produtivas brasileiras antes de decidir quais medidas poderão ser adotadas.
Representantes de setores produtivos defendem cautela. Levantamento citado pela Amcham Brasil indica que 90,5% das empresas consultadas preferem intensificar as negociações diplomáticas, enquanto apenas 3,2% apoiam medidas de represália.
A Lei da Reciprocidade permite ao Brasil adotar instrumentos que vão além das tarifas de importação, incluindo suspensão de concessões comerciais e medidas relacionadas à propriedade intelectual. A definição, porém, dependerá do andamento das consultas e das negociações com Washington.
Assim, as experiências de China, Canadá e outros parceiros mostram que retaliar os Estados Unidos não produz um resultado único: pode aumentar o poder de negociação, mas também elevar custos, provocar novas tarifas e prolongar disputas comerciais. Para o Brasil, o principal desafio será pressionar Washington sem transformar o conflito tarifário em uma escalada capaz de prejudicar empresas e consumidores brasileiros.
Da redação Mídia News




