Christian Eriksen: o pequeno dispositivo que ajudou a tornar possível um retorno impressionante ao futebol
Dinamarquês sofreu uma parada cardíaca em pleno jogo da Eurocopa, foi reanimado no gramado e, meses depois, voltou à elite protegido por um desfibrilador implantado no peito; ao final desta matéria, o cirurgião cardiologista Dr. Ricardo Benfatti explica, em entrevista, como funciona o CDI e quais cuidados devem ser adotados por quem vive com o dispositivo.

Durante alguns minutos de 12 de junho de 2021, o futebol deixou de importar. Diante de milhares de pessoas no Estádio Parken, em Copenhague, e de milhões de espectadores pela televisão, Christian Eriksen caiu subitamente no gramado durante a partida entre Dinamarca e Finlândia pela Euro 2020.
Não havia ocorrido uma dividida violenta nem choque com outro jogador. Eriksen simplesmente desabou.
O meia dinamarquês, então com 29 anos, havia sofrido uma parada cardíaca. A rápida intervenção dos companheiros e, principalmente, da equipe médica mudou o desfecho daquela história. Os profissionais iniciaram manobras de ressuscitação cardiopulmonar e utilizaram um desfibrilador. Eriksen foi reanimado ainda no gramado. A UEFA posteriormente homenageou a equipe médica e o capitão dinamarquês Simon Kjær pela atuação naquela emergência.
Entre a vida e o futebol
O próprio Eriksen contou posteriormente que ficou inconsciente por aproximadamente três ou quatro minutos. Quando recuperou a consciência, inicialmente não compreendia completamente o que havia acontecido. Somente durante o transporte para o hospital percebeu a dimensão da emergência que acabara de enfrentar.
A pergunta parecia inevitável: seria possível voltar a jogar futebol profissional depois de uma parada cardíaca?
Foi nesse ponto que entrou em cena um aparelho pequeno, mas decisivo para a nova etapa de sua vida.
Após exames e acompanhamento médico, Eriksen passou por uma cirurgia para receber um cardioversor-desfibrilador implantável, conhecido pela sigla CDI ou ICD em inglês. O equipamento permanece implantado no corpo e monitora continuamente o ritmo cardíaco. Caso detecte determinadas arritmias potencialmente fatais, pode atuar para tentar restabelecer um ritmo adequado por meio de estimulação ou choque elétrico.
Não foi o aparelho, isoladamente, que autorizou Eriksen a retornar ao esporte. A volta ocorreu depois de acompanhamento, exames e liberação médica. O dispositivo acrescentou uma importante camada de proteção diante do risco de uma nova arritmia grave.
Uma barreira na Itália
Havia, porém, outro obstáculo.
Eriksen pertencia à Inter de Milão, mas as regras então aplicáveis ao futebol profissional italiano impediam sua participação na Serie A utilizando o desfibrilador implantável. Em dezembro de 2021, jogador e clube encerraram o contrato de comum acordo.
Parecia possível que aquele fosse o encerramento prematuro da carreira de um dos principais jogadores de sua geração.
Eriksen escolheu tentar outro caminho.
Depois de meses de treinamento, avaliações e preparação, assinou com o Brentford, da Inglaterra, em janeiro de 2022. Em 26 de fevereiro daquele ano, entrou em campo contra o Newcastle pela Premier League.
Haviam se passado pouco mais de oito meses desde a cena dramática de Copenhague.
O homem que precisou ser ressuscitado diante do mundo estava novamente disputando uma partida oficial de futebol.
O retorno à seleção tornou a história ainda mais simbólica
Em março de 2022 veio outro capítulo.
Eriksen voltou a defender a Dinamarca e marcou praticamente imediatamente: fez um gol com seu primeiro toque na partida contra a Holanda. Dias depois, marcou novamente diante da Sérvia.
A segunda partida ocorreu justamente no Parken, em Copenhague — o estádio onde havia sofrido a parada cardíaca nove meses antes. Eriksen entrou no gramado como capitão da seleção dinamarquesa.
Muito além de um “milagre”
É tentador resumir a história como um milagre. Mas existe uma dimensão ainda mais importante: o retorno de Eriksen também é uma história de medicina, preparação e resposta rápida a uma emergência cardíaca.
Sua sobrevivência começou antes do implante do CDI. Foi fundamental que pessoas percebessem imediatamente a gravidade da situação, que houvesse profissionais preparados para realizar ressuscitação cardiopulmonar e que um desfibrilador estivesse disponível.
A experiência teve repercussões além da carreira do jogador. A UEFA reforçou a importância dos equipamentos e protocolos de emergência, enquanto Eriksen posteriormente participou de iniciativas de divulgação e instalação de desfibriladores em instalações esportivas.
O pequeno aparelho implantado em seu corpo tornou-se símbolo visível de uma segunda oportunidade, mas sua história também demonstra algo menos espetacular e talvez mais importante: diante de uma parada cardíaca, tempo, treinamento, ressuscitação e acesso rápido a um desfibrilador podem separar uma tragédia de uma sobrevivência.
Christian Eriksen voltou a correr, cobrar faltas, dar assistências e defender seu país.
E toda vez que entrou novamente em campo depois daquele 12 de junho de 2021, carregou consigo algo que não estava ali no início daquela Eurocopa: um pequeno dispositivo preparado para agir caso seu coração voltasse a entrar em uma arritmia perigosa.
Uma tecnologia de poucos centímetros que passou a fazer parte de uma das histórias de retorno mais marcantes do futebol contemporâneo.
COMENTARIO
Dois desfibriladores, funções diferentes e o mesmo objetivo: salvar uma vida
Um dos pontos mais importantes da história de Christian Eriksen é entender que o equipamento que ajudou a salvar sua vida no gramado não é o mesmo que passou a acompanhá-lo depois da parada cardíaca. Embora ambos estejam relacionados ao tratamento de arritmias potencialmente fatais, eles entram em ação em situações diferentes.
No dia 12 de junho de 2021, quando Eriksen caiu durante a partida entre Dinamarca e Finlândia pela Eurocopa, a emergência exigia uma resposta imediata. Além das manobras de ressuscitação cardiopulmonar, a equipe médica utilizou um desfibrilador externo, equipamento capaz de analisar o ritmo cardíaco e, quando indicado, aplicar uma descarga elétrica para tentar restabelecer um ritmo compatível com a circulação.
É o mesmo princípio que torna tão importantes os desfibriladores externos automáticos, conhecidos como DEA, encontrados em aeroportos, estádios, academias, empresas e outros locais de grande circulação.
O CDI funciona como um “guardião” permanente
Depois de sobreviver à parada cardíaca e passar por investigação médica, Eriksen recebeu outro tipo de equipamento: o cardioversor-desfibrilador implantável (CDI).
Diferentemente do aparelho utilizado no gramado, o CDI é colocado cirurgicamente sob a pele, normalmente na região superior do tórax. O gerador permanece conectado ao coração por eletrodos e monitora continuamente a atividade elétrica cardíaca.
Se determinadas alterações graves do ritmo forem detectadas, o aparelho pode tentar corrigi-las automaticamente. Dependendo da situação e da programação do dispositivo, isso pode ocorrer por meio de estímulos elétricos rápidos ou de uma descarga de maior energia.
Em outras palavras, enquanto o desfibrilador externo depende de alguém para prestar socorro, o CDI permanece permanentemente atento ao coração do paciente.
Não é um “coração artificial”
Também é importante desfazer uma confusão frequente. O CDI não substitui o coração e não funciona exatamente como um marca-passo convencional, embora alguns modelos também possam exercer funções de estimulação cardíaca.
Sua principal missão é reconhecer determinadas arritmias ventriculares perigosas e atuar rapidamente quando necessário.
Por isso, o pequeno dispositivo que aparece implantado no tórax tornou-se um dos símbolos da segunda etapa da carreira de Eriksen.
Ele não foi responsável sozinho pelo retorno do jogador ao futebol. A volta aos gramados envolveu avaliações cardiológicas, acompanhamento especializado, treinamento progressivo e liberação médica. O CDI passou a integrar esse novo cenário como uma proteção contra determinados ritmos cardíacos potencialmente fatais.
Uma história que começa antes do CDI
Existe, porém, uma mensagem ainda maior na história do dinamarquês.
O CDI tornou possível oferecer proteção permanente depois do episódio, mas, naquela tarde em Copenhague, Eriksen ainda não possuía o aparelho. Sua sobrevivência esteve diretamente ligada à identificação rápida da parada cardíaca, ao início da ressuscitação e ao acesso ao desfibrilador.
Por isso, a imagem de Eriksen novamente em campo carrega duas histórias tecnológicas diferentes: o desfibrilador externo que participou da emergência e o pequeno CDI que passou a acompanhá-lo pelo restante de sua trajetória esportiva.
Um entrou em ação quando cada segundo era decisivo.
O outro permanece preparado para agir caso uma situação semelhante volte a ocorrer.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais extraordinária dessa história: entre a queda que silenciou um estádio e o retorno ao futebol de elite existe uma combinação de atendimento imediato, medicina, tecnologia e acompanhamento especializado.
A orientação individual do cardiologista sempre prevalece, porque o motivo do implante e a programação do aparelho variam.

Da redação Mídia News Campo Grande

