
Cientistas nos Estados Unidos estão recorrendo a uma ajuda pouco convencional para tentar aumentar a precisão das previsões de furacões: tubarões. Pesquisadores estão instalando pequenos sensores eletrônicos nos animais para transformá-los em plataformas móveis capazes de coletar informações das águas do Oceano Atlântico.
O projeto é liderado pelo cientista marinho Aaron Carlisle, da Universidade de Delaware. Os equipamentos são fixados na região da nadadeira dorsal e conseguem registrar parâmetros como temperatura, profundidade e condutividade da água, informação utilizada para determinar a salinidade.
Os dados são importantes porque a quantidade de calor armazenada no oceano exerce papel fundamental na formação e, principalmente, na intensificação dos furacões. Satélites conseguem observar com eficiência a superfície marítima, mas obter informações detalhadas das camadas abaixo dela continua sendo um desafio.
É justamente nesse ponto que entram os tubarões. Ao percorrerem grandes distâncias e mergulharem em diferentes profundidades, os animais passam por regiões que podem ser difíceis ou caras de acompanhar continuamente com navios, boias ou equipamentos robóticos.
Quando determinados tubarões retornam próximo à superfície, os dados armazenados pelos sensores podem ser transmitidos por satélite aos pesquisadores. Entre as espécies utilizadas ou consideradas no projeto estão tubarões-mako, tubarões-azuis, tubarões-martelo e exemplares jovens de tubarão-branco.
Dados podem aperfeiçoar modelos
A estratégia já encontra respaldo em pesquisas científicas. Estudo publicado em abril de 2026 na revista npj Climate and Atmospheric Science utilizou mais de 8,2 mil perfis de profundidade e temperatura obtidos por tubarões no Atlântico Noroeste.
Em testes retrospectivos, a incorporação dessas observações reduziu em até 40% o erro relacionado à temperatura da superfície do oceano em comparação com previsões de controle, demonstrando o potencial dos animais como complemento aos sistemas tradicionais de observação.
No caso dos furacões, uma das áreas de interesse dos pesquisadores é a chamada “cold pool” do Médio Atlântico, uma camada sazonal de água fria próxima ao fundo. A temperatura e a distribuição dessas águas podem interferir na quantidade de energia disponível para uma tempestade e, consequentemente, na velocidade com que um furacão ganha ou perde intensidade.
A intenção não é substituir satélites, boias, drones ou outros instrumentos meteorológicos e oceanográficos, mas acrescentar uma nova fonte de informações aos modelos de previsão. Quanto mais precisos forem os dados sobre as condições abaixo da superfície, maior poderá ser a capacidade dos cientistas de estimar a evolução da intensidade das tempestades.
Além do benefício meteorológico, os pesquisadores destacam que a iniciativa oferece uma perspectiva diferente sobre os tubarões: animais frequentemente associados ao perigo passam a colaborar, ainda que involuntariamente, com sistemas que podem ajudar a proteger populações costeiras dos efeitos de grandes tempestades.
Da redação Mídia News





