Jornal alemão afirma que Lula transformou a Justiça em ferramenta de proteção política
Em artigo publicado pelo Die Welt, correspondente Tobias Käufer questiona a independência do Judiciário brasileiro, critica decisões do STF e aponta possível uso político da Justiça contra adversários de Lula

O jornal alemão Die Welt publicou, nesta quinta-feira (29), um artigo de opinião com críticas à atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Supremo Tribunal Federal (STF). Assinado pelo correspondente para a América Latina Tobias Käufer, o texto questiona a independência do Judiciário brasileiro e levanta dúvidas sobre o funcionamento do Estado de Direito no país.
Com o título original Ist Brasilien noch ein Rechtsstaat? — em português, “O Brasil ainda é um Estado de Direito?” —, o artigo sustenta que a Justiça brasileira teria se transformado em um instrumento de proteção política do grupo ligado ao presidente Lula.
A avaliação é do jornalista alemão e não representa uma conclusão judicial sobre a existência de interferência política nas instituições brasileiras.
Decisões contra Flávio Bolsonaro motivam críticas
Um dos principais pontos abordados pelo correspondente é a atuação do STF após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (25), quando Lula conquistou a reeleição contra Flávio Bolsonaro.
Käufer questiona a rapidez das medidas judiciais relacionadas ao senador, especialmente o pedido de apreensão de seu passaporte e a determinação que o impedia de deixar o território nacional.
Flávio Bolsonaro viajou para os Estados Unidos, onde desembarcou em Miami na quarta-feira (28), apesar das restrições determinadas pela Justiça brasileira.
O jornalista interpreta a sequência dos acontecimentos como um possível movimento de retaliação política contra o candidato derrotado.
As medidas, entretanto, estão relacionadas a investigações envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A existência dessas investigações não significa comprovação de culpa.
Correspondente questiona indicações políticas ao STF
Outro aspecto destacado no artigo envolve a composição do Supremo Tribunal Federal e a influência exercida pelos presidentes da República na escolha dos ministros.
Käufer argumenta que a permanência do Partido dos Trabalhadores no comando do Executivo durante diferentes períodos permitiu a indicação de integrantes da mais alta Corte brasileira.
O correspondente também compara a repercussão internacional da indicação de André Mendonça, realizada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, com as nomeações feitas por Lula.
Na avaliação do jornalista, houve maior resistência à escolha de Mendonça, identificado com o segmento evangélico, do que às indicações de Cristiano Zanin, antigo advogado de Lula, e Flávio Dino, ex-ministro da Justiça.
No Brasil, a indicação de ministros do STF é uma atribuição constitucional do presidente da República, sujeita à aprovação do Senado Federal.
Alexandre de Moraes também é alvo de questionamentos
O ministro Alexandre de Moraes aparece entre os principais alvos das críticas apresentadas pelo correspondente alemão.
O artigo menciona decisões judiciais envolvendo adversários políticos do governo e medidas relacionadas à identificação de fontes jornalísticas.
Käufer cita episódios que, em sua interpretação, provocaram preocupações sobre a liberdade de imprensa e os limites da atuação do Judiciário.
O texto também aborda questionamentos envolvendo a Transparência Internacional e decisões relacionadas a investigações de corrupção.
Para o correspondente, esses acontecimentos contribuíram para ampliar a desconfiança em relação à independência das instituições judiciais brasileiras.
Asilo concedido a ex-primeira-dama do Peru entra no debate
O artigo ainda menciona a concessão de asilo político pelo Brasil a Nadine Heredia, ex-primeira-dama do Peru, condenada naquele país por corrupção.
Käufer relaciona o episódio às investigações internacionais envolvendo a construtora Odebrecht e questiona o tratamento dispensado a pessoas associadas a escândalos de corrupção.
A concessão de asilo político, contudo, constitui uma decisão do Poder Executivo, distinta das atribuições jurisdicionais do Supremo Tribunal Federal.
Declaração de Lula após eleição é criticada
O correspondente também analisa uma declaração de Lula após a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos.
Ao comentar a saída do adversário do país, o presidente afirmou que quem não deve não teme.
Na interpretação de Käufer, a manifestação presidencial transmitiu uma mensagem de pressão política em um momento de decisões judiciais envolvendo o senador.
O artigo sugere que Lula deveria ter evitado comentários sobre procedimentos em andamento, preservando a separação entre o Executivo e o Judiciário.
Publicação amplia debate internacional sobre instituições brasileiras
A análise publicada pelo Die Welt ocorre em um cenário de forte polarização política no Brasil, marcado pela reeleição de Lula, pela derrota de Flávio Bolsonaro e por discussões sobre a atuação do STF.
O texto representa uma manifestação crítica da imprensa internacional sobre o funcionamento das instituições brasileiras, mas suas acusações e interpretações devem ser diferenciadas de fatos judicialmente comprovados.
O debate envolve questões como a independência entre os Poderes, a transparência das decisões judiciais, a liberdade de imprensa e a necessidade de assegurar tratamento igualitário perante a lei.
A repercussão dessas críticas também coloca em discussão possíveis reformas institucionais e os mecanismos de fiscalização e responsabilização dos integrantes do Poder Judiciário.
Da redação Mídia News Campo Grande





