Paraguai aprova moção de repúdio contra declarações de Lula e reforça pedido pela devolução de troféus da Guerra da Tríplice Aliança
Parlamento paraguaio considera que fala do presidente brasileiro distorce a história do conflito e defende restituição de peças históricas, incluindo o Canhão Cristiano

A Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou uma resolução de repúdio às recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança (1864–1870), ampliando uma crise diplomática em torno da interpretação histórica do conflito que marcou a relação entre os dois países. Além da manifestação oficial de descontentamento, os parlamentares paraguaios solicitaram que o governo intensifique as negociações diplomáticas para a devolução de troféus de guerra levados ao Brasil após o fim do confronto, com destaque para o histórico Canhão Cristiano, considerado um dos principais símbolos da resistência paraguaia.
A reação ocorreu após Lula afirmar, durante um discurso em defesa do fortalecimento das Forças Armadas brasileiras, que “um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”, utilizando o episódio histórico como argumento para justificar investimentos na área de defesa. A declaração provocou forte repercussão no Paraguai, onde autoridades políticas classificaram a fala como uma simplificação de um dos episódios mais traumáticos da história nacional.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, criticou publicamente o posicionamento do chefe de Estado brasileiro, afirmando que a Guerra da Tríplice Aliança representa “a maior tragédia” vivida pelo país e que o conflito não pode ser resumido apenas à invasão paraguaia ao território brasileiro. Parlamentares paraguaios sustentam que o contexto histórico envolve fatores políticos e militares anteriores, incluindo a intervenção do Império do Brasil no Uruguai, considerada por setores da historiografia como um dos elementos que contribuíram para a escalada do conflito.
Na resolução aprovada, os deputados também reafirmam o compromisso de preservar a memória histórica do Paraguai e pedem ao Poder Executivo que promova esforços diplomáticos para recuperar bens considerados patrimônio nacional. Entre eles está o Canhão Cristiano, peça de artilharia produzida em 1866 a partir do bronze de sinos doados pela população paraguaia durante a guerra e atualmente preservada no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Além do canhão, o documento menciona outros objetos levados como troféus militares ao final da campanha.
A Guerra da Tríplice Aliança foi travada entre o Paraguai e a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai, sendo considerada o maior conflito armado da história da América do Sul. O episódio permanece objeto de intenso debate entre historiadores, especialmente em relação às suas causas, responsabilidades e consequências humanas, econômicas e territoriais para os países envolvidos.
Embora o pedido de devolução do Canhão Cristiano não seja inédito, a nova controvérsia recolocou a reivindicação no centro das discussões diplomáticas entre Brasília e Assunção. Até o momento, o governo brasileiro não anunciou qualquer mudança de posição sobre a eventual restituição do artefato histórico nem respondeu oficialmente à resolução aprovada pelo Parlamento paraguaio.
Da redação Midia News

